A maternidade e a matrix

Morpheus 2.0 oferece a pílula vermelha a Neo: eu tomaria?

Minha primeira ida a uma sala de cinema depois de infinitos anos – pandemia+morar no interior – foi no dia de Natal. Primeiro, Homem Aranha com a criança, depois Matrix Resurrections com o comparsa.

Não pretendo falar sobre a experiência do cinema, coisa que fiz há pouco aqui; nem sobre o filme em si, coisa que Alex Pappademas fez, de maneira ótima, na The New Yorker (sempre bom pensar a filmografia de Keanu Reeves, eterno crush adolescente/adulto, a partir da persona Keanu Reeves). Igualmente sempre bom lembrar a virada gendrada de protagonismo que a retomada da franquia das irmãs Wachowski propõe, assim como a crítica, bem levinha, à binaridade que compõe o pensamento cisnormativo.


(Não pretendendo falar sobre o filme de forma geral, falei. Paro por aqui.)

Minha questão é outra. Pra mais de nove anos, desde que a maternidade me atravessou, esse é um filtro frequente pelo qual leio o mundo. Meu modo de olhar a vida, a cultura, é inevitavelmente a lente de uma mulher cishetero mãe. Mãe de uma menina. E Matrix Resurrections, que resvala numa pontinha da questão da maternidade, me fez o convite para compreender o filme desse modo.

Em determinado momento, uma mãe é confrontada com a ideia de que seus filhos, amados, tão pretensamente reais, são, na verdade, projeções mentais para mantê-la sob as rédeas das máquinas, seu corpo apenas uma fonte de energia dos seres sencientes que aniquilaram a humanidade. As crianças são parte da pílula azul.

E, apesar da interpretação spin doctor alucinante da extrema direita masculinista, todo mundo com mais de dois neurônios sabe que a pílula vermelha é uma libertação da distopia consumista capitalista conformista, conservadora, e a escolha óbvia, de qualquer ser humano, é ser livre, é buscar a verdade, é enfrentar a realidade árida a despeito de suas dificuldades. É preciso coragem pra encarar a vida fora da matrix.

Faz muitos anos que deixei de buscar algum sentido na vida, seja na religião, na filosofia, na ciência, como o Macbeth de Shakespeare já nos ensinou:

Life’s but a walking shadow, a poor player
That struts and frets his hour upon the stage,
And then is heard no more. It is a tale
Told by an idiot, full of sound and fury,
Signifying nothing.

Mas foi na maternidade que encontrei um sentido insuspeito para a vida, para a minha vida: no amor pela minha filha; nos cuidados diários, que se transformam à medida que corpo e mente dela crescem e ganham autonomia sobre si e sobre o mundo; na vontade de protegê-la do flagelo planetário que espreita essa geração e dos flagelos diários que perseguem as crianças do mundo todo; no desejo por uma educação ética, que a permita agir sobre o mundo e pensar no outro; em dar oportunidade para que ela seja quem quiser, e seja feliz.

E, sobretudo, o sentido para minha vida parece residir no medo insuportável de perder esse sentido, essa vida, essa filha, a gargalhada que ela solta no sono, o cheiro de criança suada quando mergulho o rosto nos cabelos dela. Toda minha experiência com Matrix mudou quando me dei conta de que uma decisão que parecia clara para mim, a pílula-vermelha-em-vez-da-azul, já não era tão clara assim.

E daí se essa filha tão amada é apenas uma ilusão? As cócegas que faço no pé dela são reais o suficiente para me deixarem feliz. Se Cecilia for uma projeção, apenas “uma história contada por um idiota”, ela é a melhor das ficções. A mais difícil de abandonar, em nome de uma realidade que parece só trazer alegria, mesmo, a Neo e Trinity, naquele amor profundo que compartilham, quase, para além da vida.

E a ficção, afinal de contas, não é o mesmo que uma mentira, nos ensina a teoria literária. Ela existe, é parte do mundo, circula por ele, é produzida por ele e ajuda a ordená-lo. Não à toa o crítico da revista dos EUA aponta que vivemos em um mundo que o Matrix original ajudou a criar. Um filme moldou um mundo (também de maneiras imprevistas, ao ser apropriado pela loucura masculinista, arre), assim como minha filha estruturou a narrativa de minha vida como nada mais antes havia sido capaz de fazer.

Preferir viver na mentira compensatória parece ser justamente a aposta das máquinas/de Neil Patrick Harris em Matrix Resurrections, uma discussão bem pouco sutil sobre a força das crenças/a força dos fatos e o ambiente informacionalmente disfuncional em que vivemos. Nesse contexto, a maternidade é um golpe bem baixo, patriarcal, sobre as mulheres, supondo que dar filhos a elas é uma maneira de prendê-las na matrix, uma aposta no essencialismo milenar mulher-mãe.

E aqui estou eu. Mãe, feminista, assumindo não saber qual pílula tomaria se, entre todas as consequências que o gesto traz, estivesse perder a vida que vivi e vivo ao lado da minha filha. Não porque me sinto na obrigação patriarcal de ser mãe. Mas porque o amor, gesto poderoso, componente essencial contra o ódio, ato cotidiano que me estrutura, me faz titubear.

Talvez, numa fantasia compensatória pollyanna-style, eu possa/pudesse pensar que, como Neo e Trinity, o corpinho real de Cecilia estivesse à espera de ser liberto e embarcar em Zion ou Io comigo. Seria um outro sentido então, justamente o amor, que me faria engolir a pílula vermelha.

É ele, no fim das contas, que me ajuda a atravessar essas terras pedregosas de 2021, sem nenhuma pílula e diante de um futuro incerto, aterrorizante, às vezes bem parecido com a vida fora da matrix: a promessa concretizada por Cecilia de um amor que se realiza diariamente.

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