As imagens que assombram e encantam

No meio do céu de Brasília, as imagens

Eu usava um vestido balonê corderosa, com listras brancas, quando fui ao cinema pela primeira vez, com meu pai. Lua de Cristal no Conic. Era a primeira, marcante, de poucas idas infantis ao cinema, nos anos 80 era tudo mais longe, mais difícil, caro, a vida de uma família pobre tinha menos aspirações e esperanças (e a vida sob Bolsonaro começa a se parecer com aquela vida, pra muita gente nesse país).

Mas naquela tarde nascia a Karina que, mais de três décadas depois, continua a se encantar com as imagens fantasmáticas se movendo dentro da tela. Ainda sou, de alguma maneira, a Cecilia de Mia Farrow buscando na sala escura alento, contraponto, alienação, comentário, excesso, sentido para a vida real.

O amor pelo audiovisual permanece mesmo depois de ter sido tão transformado, chacoalhado, entre 2010 e 2014, quando vivi, na sequência, o doutorado, jane austen, a maternidade, o concurso público. A vida foi encontrando maneiras de estreitar meus espaços para ver filmes.

Mas sempre achei brechas, e quando Cecilia nasceu as fissuras também se abriram para retomar aquela menina que gostava de desenhos animados. Eu já não me lembro da roupa que Cecilia usava quando foi ao cinema pela primeira vez, era Divertidamente, em Brasília, não mais o charme do cinema de rua (hoje igreja…), mas o multiplex.

Ela não gostou tanto da experiência, mas anos depois o amor pelo cinema, pelo audiovisual, pelos fantasmas encantados, foi passado de mãe à filha e é compartilhado em sessões caseiras (que são ótimas, mas não são o cinema, o ir-ao-cinema). Morando no interior, esse ir-ao-cinema tem sido mais um dos desafios impostos pela extrema desigualdade geográfica (mais uma) que conforma o Brasil.

Das 3.507 salas de exibição existentes em 2019, segundo o Anuário Estatístico do Cinema Brasileiro, da Ancine, apenas 312 estão em cidades de até 100 mil habitantes: 18,2% da população brasileira é atendida por esses espaços, apesar de as cidades desse porte corresponderem a 42,5% da população. São apenas 176 cidades com cinema no interior, e Mariana não é uma delas. Ouro Preto tinha uma sala, o bonito Cine Vila Rica, fechado porque a universidade não consegue dinheiro para reformar um equipamento público, patrimônio centenário, sobre o qual ninguém mais parece querer se responsabilizar e que a instituição coloca nos braços na esperança de carregar, aos trancos, como vem se carregando há décadas.

Na pandemia, a falta do cinema em nossas vidas se agravou, já que ir a Belo Horizonte de tempos em tempos para ver filmes cuidadosamente escolhidos deixou de ser opção (ir a qualquer lugar deixou de ser opção).

E foi assim que, quase dois anos depois de ir ao cinema pela última vez, Cecilia conheceu o Cine Drive-in de Brasília. Durante muito tempo, foi o único remanescente de seu tipo no país, até que o isolamento social levou à grande velha-nova ideia de ver filmes no carro. Lá fomos nós – eu, ela, meu irmão – num fim de tarde nublado, chuvisco fino. Cecilia queria muito ver o filme da Patrulha Canina (não, ainda não superamos a fase canídea; na verdade, ela se aprofundou, agora um cão de verdade come alface aqui em casa).

A experiência da tela mais-que-grande, enorme, a céu aberto, o som do filme pelo rádio do carro, os pingos da chuva dando às imagens um filtro surrealista, pipoca com manteiga, a gargalhada, os olhos brilhando, a euforia da menina.

Podia ter sido o melhor ou o pior filme da minha vida. Foi uma das quartasfeiras mais felizes em muito tempo: Cecilia encantada com as imagens projetadas no céu candango, a nesga de alegria em tempos sombrios. Quartasfeiras nos fazem bem. Foi numa noite de quarta, também chuviscosa, que Cecilia nasceu.

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