A mágica que nos sustenta de pé

No verso do desenho está escrito “eu prendi o saci na garrafa”

No último dia 21 de agosto foi dia do folclore, e eu só soube do assunto porque repentina (e raramente) nossas redes sociais ficam inundadas de sacis, iaras, uirapurus, boitatás… O ano todo povoado por demônios reais da política, um dia para nos lembrarmos de nossas origens míticas e mágicas, depois submersão novamente, nenhum comentário.

Em tempos de pandemia, sequer há as infames atividades artísticas escolares em que a criança volta pra casa com chapéu de saci ou com boto rosa pintado no papel. É pelas telas que vêm algum vídeo da turma da Mônica ou cantam desanimadamente alguma parlenda na reunião do meet.

Tenho me sentido cada vez mais uma policarpo quaresma, lutando por tempos menos coloniais que nunca houve (talvez antes da invasão, em 1500?) e não sei se haverá.

Cecilia já participou de algumas dessas performances, mas uma foi diferente. Anos atrás, ainda na Educação Infantil, num dia do folclore ela chegou em casa com uma garrafinha, onde o saci estava trancado. Por muito tempo ela acreditou que o saci realmente morava ali dentro, e que não devia tirar a tampa.

Ela sempre me perguntava se o saci era verdade. E eu dizia, ainda digo, que uma lenda pode ou não ser verdade, depende do que você acredita.

Ela ainda acredita em papai noel, coelho da páscoa e fada do dente. Também acredita que os brinquedos conversam à noite, enquanto ela dorme. O saci na garrafa ainda repousa, muito cuidado, na estante do quarto.

Mas aos poucos ela tem diminuído a quantidade das perguntas que me faz sobre seres fantásticos. Minha filha está crescendo. Se desencantando, ou desencantando/desmagificando o mundo que a cerca (o falecido professor Antônio Flávio Pierucci escreveu muito sobre o pensamento de Weber a respeito do desencantamento do mundo). Tem sido um processo suave, porque aqui em casa nunca desacreditamos nenhuma das possibilidades mágicas da infância. Não sei como vai ser quando descobrir que as cartinhas do papai noel estão numa caixinha e os dentes, num potinho.

Mas penso, mesmo, que preservar esses espaços mágicos da infância e deixar que desvaneçam aos poucos permite que ela guarde num canto quentinho uma outra esperança no mundo, uma vontade de reencantar o que nos cerca, um diálogo com o mágico, o esperançoso e o utópico, uma discussão que fiz na época da tese e em que ainda acredito. Jane Bennett, não a irmã de Elizabeth, a filósofa, tem um ótimo livro sobre isso.

São afetos mais que nunca necessários diante da dureza dos tempos que vivemos e da aspereza dos tempos que a aguardam.

Quero que minha filha sorria quando encontra dormideiras e repita comigo a canção mágica que faz as folhinhas se recolherem, mesmo sabendo a explicação científica (e acreditando nela, obviamente). Quero que minha filha veja um redemoinho e aponte: “Olha lá o saci!”, mesmo compreendendo a natureza daquele fenômeno. Quero que os olhos dela brilhem de maravilhamento diante das coisas do mundo, as explicáveis, as inexplicáveis, as fortuitas e as incidentais.

É o que sustenta a gente de pé.

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