Redimiram Scar

Scar em cena da 3a temporada d’A Guarda do Leão

Não vem de hoje a onda de psicologizar e explicar a maldade de grandes vilões da cultura pop, de dar um passado contextual à formação daqueles sujeitos e, com isso, redimir, de algum modo, figuras reprováveis e deploráveis das narrativas ficcionais. Até o bom (ou não) e velho Darth Vader já teve suas maldades explicadas (em um filme chinfrim) por uma infância de escravidão e separação da mãe, origens da raiva e do medo que o levam ao lado sombrio. Como não enforcar a mulher amada, grávida, diante dessa bagagem?, vejam bem, que outro modo de agir no mundo?

Muito já vem se discutindo sobre o tema a partir de Coringa (2019), que apresentou um incel revoltado na raiz do melhor antagonista de Batman. Cruella (2021), da Disney, aprofunda esse tropo narrativo com a história (estilosamente contada, note-se) da pobre órfã que presenciou o assassinato da mãe. “Obviamente” ela só podia se tornar uma psicopata que quer assassinar filhotinhos de cães.

Corta para A guarda do leão. (CONTÉM SPOILERS)

Cecilia adora A Guarda do Leão, série infantil que é uma continuação para a TV da narrativa de O rei leão, transmitida pelo Disney Jr. O spin off narra as aventuras do filho caçula de Simba, Kion, e seus amigos que formam uma guarda especial de defesa das Terras do Reino, tradição ancestral. Até outro dia (semana passada, na verdade), a série tinha duas temporadas exibidas, que terminaram num cliffhanger tenso, e a criança estava há tempos esperando uma conclusão que parecia nunca chegar (eu mesma já tinha desistido).

Eis que no domingo descobri a terceira temporada finalmente disponível no Disney+. Lá foi a criança assistir a resolução do grande embate entre Kion e alguém a quem conhecemos de outros carnavais, Scar (em uma versão fantasmática/maligna). Eu ali junto, meio trabalhando, meio curiosa, e de repente um flashback explica como Scar virou aquele monstro sedutor fracassado que assassina o irmão, dá um golpe de estado, bota fogo na toca, expulsa do reino o governante sucessor natural, coloca as terras em penúria, ameaça a rainha e tenta matar o sobrinho (parece nossos piores presidentes, enfim).

E não é que, quando jovem, Scar era o chefe da guarda do reino (isso a gente já sabia do começo do desenho), mas um dia, ludibriado por outro leão malvado, foi picado/arranhado por uma cobra venenosa? Além da cicatriz no olho deixada pelas presas da serpente (daí o apelido, que ele odeia), Scar foi envenenado. O veneno? Uma incapacidade de distinguir o bem do mal que o deixou cada vez mais agressivo, amoral e com raiva.

Coitado do Scar, gente, ele fez milhões de crianças chorarem com a morte de Mufasa (e com as outras infinitas outras atrocidades que comete), mas não foi por querer. Não era culpa dele. Como agir de outro modo?

O passado de Scar nos leva a sentir empatia por ele. Ainda que logo no início da terceira temporada ele arme um plano que pretende emboscar e queimar as hienas (às quais ele traiu) e a guarda, composta por animais jovens – e outras perversidades.

Trata-se, me parece, de um movimento duplo. De um lado, a cultura pop anda às voltas com uma necessidade patológica de redenção de indivíduos sem controle sobre suas vidas – e, logo, sem responsabilidade sobre seus atos. Somos levados a pensar em como Scar poderia ter sido bom sem aquela picada maldita.

Por outro lado, esse background nos levar a acreditar que suas ações malévolas sejam justificáveis. Scar está apenas devolvendo a violência que recebeu – como poderia agir diferente?

Oras, poderia ser diferente de mil maneiras. Cada um de nós carrega correntes do nosso passado, nossos traumas, nossas violências sofridas, vida afora. Podemos usar a potência dessa dor de muitos modos, não apenas por meio da violência. A violência não pode ser o único afeto organizador das nossas vidas, como a redenção narrativa de Scar parece propor.

Esse tipo de narrativa parece propor também sujeitos à deriva da fortuna, do destino. Nos casos particulares de Cruella e Scar a narrativa reforça o caminho quase inevitável à frente deles, enquanto minimiza a autonomia. Nesse contexto, o que resta de agência, de escolha? Muito pouco.

(Claro, existem sujeitos vulneráveis diante dos sistemas que nos ordenam que têm, mesmo, uma margem muito mais estreita de opções, e em torno dos quais muitas vezes a violência é um afeto organizador poderoso da experiência. Mas nem todos escolhem o “caminho do mal” como resposta à violência, à vulnerabilidade.)

Ok, A guarda do leão não diz apenas isso, mas diz isso também. Em uma armação do tio-avô, Kion também é picado e marcado pela cobra venenosa, e consegue, por meio do amor, da amizade e da paciência (como antítese da raiva e do impulso) se curar.

Um comentário sobre “Redimiram Scar

  1. Mas afinal, você acha que a representação de Cruella aponta para essa psicopatia? No filme, ela não mata os cães, ao contrário, tem até a confiança deles. Acho que de todos os filmes recentes, esse seja o mais descolado da lógica apontada. Assisti recentemente, por isso fiquei pensando nisso.

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