Ser mãe no Lattes

Essa semana inseri minha licença-maternidade no Lattes. Demorou e eu não tenho nenhuma razão objetiva que não seja uma desculpa, por isso não vou me desculpar. Agora, está registrado para a academia e para a pessoa imaginária que acessa meu currículo (tirando eu pra copiar o link de acesso quando preciso) que tirei licença-maternidade entre novembro de 2012 e maio de 2013.

É um grande avanço que a maternidade venha sendo cada vez mais reconhecida como uma questão que interfere na carreira acadêmica das mulheres (em todo o resto, inclusive). Na maioria das vezes, interfere negativamente, minando oportunidades, aumentando a dupla jornada, etc. etc. etc. Há coletivos de mães em diversas universidades brasileiras, grupos de trabalho e grupos de pesquisa, e já há editais de fomento que consideram a maternidade nos tempos de concessão e para a contagem da produção acadêmica.

Porém, como tudo que ocorre no âmbito do patriarcado, esse avanço não é suficiente. Virginia Woolf diz (depois volta atrás, o que é uma pena) que é preciso destruir toda a estrutura da academia, derrubar todas as paredes, para que as mulheres sejam adequadamente reconhecidas no sistema educacional. E olha que ela dizia isso no início do século XX, naquele livro estranho, Três Guinéus. Talvez, dentro dessa estrutura, só uma reconstrução radical dê conta de promover justiça.

Por isso é um avanço, mas ainda há um longo caminho. A maternidade no Lattes conta apenas uma parte pequena da história: seis meses dela, pra ser bem exata. E a maternidade dura um tempo bem, bem maior que isso.

No meu caso, nem esses seis meses estão adequadamente narrados com essa frasezinha simples que colocamos no resumo. Aqueles seis meses entre novembro e maio foram difíceis. No primeiro mês a gente morou no hospital, e quando saímos eu tinha de levá-la ao pediatra semanalmente. Depois disso ela precisou de sessões de fisioterapia para fortalecer os músculos e aprender a levantar o pescoço e rolar.

Durante toda a licença, eu amamentava com um cronômetro, não para controlar o tempo de Cecilia no peito, mas para garantir que ela iria mamar um tempo mínimo. Quando a licença acabou voltei ao doutorado que tinha de defender até maio para tentar um concurso público em julho. Acordava às seis e meia pra ela acordar às sete; Cecilia descobriu e passou a acordar meia hora antes, e em algum momento eu acordava às cinco e meia da manhã, depois de ter escrito tese até uma, duas da madrugada.

Pois é, não cabe “mãe de criança prematura” no Lattes.

E depois desses meses e dessa licença? Incentivar a inclusão dessa informação no currículo parece isolar a influência da maternidade ao puerpério. Até parece.

Lá se vão quase oito anos. E não dá pra narrar as semanas em claro que ficamos a cada infecção na garganta dela, que estamos começando a investigar como amigdalites de repetição. Não cabem os pedidos da criança pra jogar Ludo com ela em vez de continuar trabalhando. Não cabe o tempo que passamos ajudando na tarefa de casa ou nos trabalhos esquisitos da escola, ou na leitura noturna, ou rindo juntas na cama.

O povo diz por aí que viver não cabe no Lattes. Não mesmo. Nem a maternidade.

Ainda assim, muita gente enfia a maternidade no Lattes do jeito que dá. Um hackeamento, em termos. No meu caso, a maternidade foi um rasgo na minha vida, e transformou minhas pesquisas. Como diz Cecilia, desde que ela nasceu não vemos desenhos animados: a gente estuda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s