As pintas dos grandes felinos

Quando eu era bem pequena, queria ser carnavalesca. Depois quis ser arqueóloga, depois psiquiatra, essas coisas. Cecilia, desde muito, muito novinha, quer ser “médica de alimais” – e ninja. Depois aprendeu o nome certo, veterinária, e já faz um tempo arrisca uma especialização, “veterinária de animais selvagens”.

Ela é apaixonada por felinos, com um crush especial pelo tigre dente de sabre.

Esses dias de manhã ela não quis participar da aula de inglês – acordamos tarde, e ela preferiu não se ajeitar às pressas. Eu incentivo, mas não obrigo, a participação na aula on-line, que ela curte à beça, a plataforma virtual é interessante e os professores do curso claramente foram capacitados para atuar remotamente nesse período, com estratégias pedagógicas, lúdicas e afetivas (sei dessas coisas todas porque fico por perto na aula pra ajudar em alguma coisa de infraestrutura que ela precisar, mas não interfiro de jeito nenhum no momento dela com a professora, sei bem como eles devem estar penando).

Em vez de discutir os nomes dos brinquedos do parquinho (gente, see-saw não é um nome genial pra gangorra? Nunca soube), pegou um livro e foi fazer atividades na sala. É um livro que comprei pra ela há tempos, mas só agora despertou interesse. “Escola de veterinária” (da Publifolhinha, que tem também os livros de engenharia, arquitetura e meu preferido, de astronautas).

Ensina a cuidar de animais diversos, e naquele dia Cecilia não fez nenhuma atividade de educação formal, nem da escola, nem do inglês, mas aprendeu a diferenciar os padrões de pintas de grandes felinos, para nossa alegria, porque resolve um dilema de identificação dos bichos dela (os da foto) que tínhamos há tempos por aqui.

Aprendeu os passos necessários para um zoológico adotar um rinoceronte e os procedimentos para proteger uma tartaruga. Estamos nos preparando pra discutir com ela encarceramento de animais, vida selvagem e preservação de habitats (o que nos leva de novo à pandemia, meu deus, a gente fica monotemática, obsessiva e hermética – não que eu já não fosse tudo isso).

Alguém poderia ponderar sobre a utilidade desses aprendizados, e eu me pergunto qual a utilidade de tantas coisas descontextualizadas, automatizadas, que aprendemos na escola sem ninguém nos dizer por quê e pra quê (talvez, se nos dissessem, poderíamos aprender melhor as coisas que nos ensinam, como Paulo Freire propôs).

Talvez Cecilia demore mais a aprender a diferença entre substantivos comuns e próprios (uma coisa mega importante para domínio e uso da língua), mas certamente vai saber o que fazer quando se deparar com um felino que corre a 100 km/h, porque conhece os padrões de pintas. É um conhecimento muito importante para veterinárias de animais selvagens.

E mesmo que minha filha nunca precise fugir de um grande felino, ela aprendeu. E conhecimento a gente usa pra tudo; pra aprender uma coisa nova, pra caminhar no mundo.

Penso sempre, muito, sobre isso (deve ser a educadora que mora em mim). Sobre como toda nossa vida é aprendizado, e como cada uma aprende quando está pronta, como aprender aumenta o que conhecemos e como nos faz percorrer o mundo com mais cordas em que se segurar.

No que me couber, darei todos os incentivos para que Cecilia cuide de quantas onças, tigres e chitas (que correm a 100 km/h) sonhar, sem precisar fugir correndo, de preferência.

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