Um mundo para Cecilia

Ou o lugar da utopia

Ou (a)normalidade

Diane Lockhart, minha advogada favorita

The good fight é uma série jurídica procedimental excelente, com pitadas de comédia nonsense, abertamente anti-Trump. Nos últimos tempos, é um dos produtos da cultura pop que tem oferecido os melhores comentários políticos ao estranho mundo que habitamos.

Na estreia da quarta temporada, a protagonista Diane Lockhart, uma advogada brilhante, democrata, feminista, acorda uma manhã e sua amiga Hillary Clinton havia ganho a eleição. Ao menos, o mundo todo pensava isso (menos ela, que se assusta por Donald Trump não ser o presidente escroque de sempre). Aos poucos essa realidade alternativa se assenta e ela se inunda de felicidade. Até que… é convidada a ser advogada de Harvey Weinstein em um caso de assédio verbal a ex-funcionários.

Naquele mundo democrata e alternativo, não houve marcha das mulheres, pussy hats ou o movimento #MeToo. Harvey nunca fora denunciado, nem Matt Lauer ou os outros moguls da mídia norte-americana que se tornaram símbolo da eclosão do debate sobre assédio sexual e estupro nos EUA e em vários lugares do mundo. Mais que isso: as feministas democratas não queriam a explosão do movimento, por considerar que a raiva das mulheres prejudicaria a reeleição de Hillary.

Diane está desolada. Elas finalmente chegaram lá, mas chegar lá significa um mundo melhor até que ponto? Um mundo melhor é alcançável ou só encontra lugar como utopia nunca realizável e, portanto, sempre perseguida?

Criança brinca junto ao portão de sua casa em Sevilha. Alejandro Ruesga, El País

É nessas coisas que me pego pensando em dias cinzentos de quarentena, ainda que haja sol.  Do quanto nos afastamos de qualquer possibilidade de utopia. Vejo as imagens das crianças espanholas saindo de casa pela primeira vez em semanas, por uma hora apenas, o mesmo tempo dos banhos de sol de encarcerados. Isso é normal? O que é o normal? O que é normal? Vejo apenas um normal transformado para sempre ou por muito tempo, tendo deslizado para uma (a)normalidade de máscaras, de confinamentos, de medo do contato, da distância, do contágio.

Normal já não tem o mesmo sentido, e minha normalidade não será a de minha filha. Talvez o normal que já não é nosso seja a utopia futura dela, uma prova de como nossos sonhos vão se apequenando em migalhas para reconquistar o que perdemos, o que vem sendo tirado de nós a todo tempo. Nem mesmo nosso rosto é mais normal, é metade máscara.

A utopia será ter direito a um rosto inteiro novamente?

Que mundo minha filha habitará amanhã, depois de amanhã, no futuro? A que terá direito, o que terá sido tomado dela? Poderá respirar? Quando ela acordar às seis da manhã e for à janela ver o sol nascendo, como fez ontem, haverá o canto dos pássaros? Quanto de mundo terá sobrado a ela, depois de o termos destruído naco por naco até destruirmos nossos corpos com vírus que nos matam porque nós devastamos tudo que havia, nossa sede de destruição?

***

O comentário agridoce de “The good fight” tem outra nota persistente, repetida por temporadas: é preciso lutar, até mesmo fisicamente (“vamos bater nuns fascistas”), ilegalmente, pelo naco de utopia que queremos buscar. Nem sequer falei da utopia feminista que perseguimos há tanto tempo e que a ameaça coletiva esmaga. As mulheres estão sempre na primeira fila da perda de direitos, dos corpos subjugados. Agora não tem sido diferente.

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