Das coisas que aprendemos quando o mundo para

Vai fazer um mês que Cecilia não vai à escola. Na primeira semana foi tudo atabalhoado, e imprimi atividades diversas e peguei livros antigos e tentamos ajustar a vida. Havia ainda alguma ilusão, otimismo.

Na segunda semana Cecilia ficou doente (e antes dela, André, e depois eu). A escola se organizou um pouco, mandou tarefas, atividades, vídeos, mensagens no whatsapp, e a essa altura eu só me preocupava com febre, alergia, remédios, contaminação, falta de álcool em gel na cidade, minha família longe.

A escola está na quarta semana de tarefas e atividades, algumas de complexidade nada invejável. Aqui, estamos penando para terminar a terceira semana, me confundo com as tarefas e com os vídeos. E nem abrimos ainda as tarefas do inglês.

Não é hora de seguir à risca conteúdo, currículo, cumprimento de carga horária.  O ano letivo é o que menos importa agora, e ver menos gente morta é mais básico que preparar uma criança de 7 anos para a universidade.

É hora de sobreviver, do jeito que dá, cuidando de cada um e de todos, da comunidade. Temos mantido alguma rotina de tarefas, dentro das possibilidades, afinidades – Cecilia adora caçar palavras, odeia escrever em letra cursiva. Adiamos, misturamos, avaliamos o humor. Ignoramos o calendário sugerido pela escola, as divisões diárias, bagunçamos tudo. Não é hora de forçar criança a nada. Tem dia que a coisa desanda e nada sai, tem dias que ela se empolga e quer fazer mais.

Mas há todo um mundo de coisas que se aprende que a escola simplesmente não dá conta, dessa maneira rígida e tradicional, nem dessa maneira nova desorganizada, despreparada e, francamente, desnecessária. Cecilia aprendeu a jogar 21 (que ajuda na matemática), roba montinho e se aperfeiçoou no pif paf. Me vence muitas vezes no Uno, com estratégias agressivas de carteado. Está jogando varetas com uma coordenação motora fina elegante. Também amamos dominó.

Se descobriu, e descobrimos com ela, uma leitora voraz de quadrinhos e HQs. Adora ler pela manhã, e sem se dar conta acorda todos os dias e pega um livro – criou um hábito. Aprendeu a arrumar a própria cama, a dobrar blusas de manga comprida. Está aprendendo a andar de bicicleta sem rodinhas. Lava louças e toda a pia, muito cuidadosa.

Todo dia, fazemos um alongamento matinal pra aguentar a labuta diária. Nos exercícios, treina concentração e paciência. Aprendeu a minha amarelinha; aprendi a dela. Está reaprendendo a dormir sozinha, com sucesso. Está aprendendo a usar o Deezer e criar as próprias listas de músicas favoritas –fica deitada na cama, ouvindo música. Diz que gosta de pop. Tem brincado mais sozinha, e usa o ábaco como planta de um hotel num plano maligno (han?).

Joga videogame e está ensinando André a jogar (eu observo, completamente incapaz e inútil). Aprendeu a me cobrar quando eu descumpro regras da família (ops), e não aceitou muito bem minha justificativa de que comer chocolate durante a semana é uma válvula para a ansiedade.

Aprendeu a gostar dos ovos mexidos que André faz no café da manhã, aprendeu a comer coisas novas. Sabe os nomes de vários repórteres da Globonews e reconhece a voz de Rodrigo Maia na tv (há aprendizados e aprendizados…).

Sabe rapidamente quando estamos tristes, com medo, preocupados. E nos consola. Está aprendendo a viver na crise, a viver isolada, a esperar. Nem todo aprendizado é desejado.

Eu queria que ela estivesse na escola. Queria que visse os amigos e amigas, as professoras, que estivesse vencendo a birra da letra cursiva. Queria que participasse desse espaço de sociabilidade e aprendizado tão importante. Queria que tudo ainda fosse normal. Como educadora, valorizo a escola. Mas a cada tempo o que cabe nele. Hoje, não cabe escola. Cabe aprender outras coisas da vida. Cabe esperar, recalcular, reavaliar, redimensionar o tamanho de cada coisa na nossa vida. Hoje, preservar a vida é o que nos cabe, e o que cabe na nossa vida.

Nós, aqui, estamos aprendendo nossa filha, que saiu da primeira infância e desabrocha numa menina divertida, engraçada, de humor cáustico e sorriso fácil, que desemboca rápido no soluço.

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