Parem de controlar minha natalidade, cacete

A taxa de natalidade de uma mulher-mãe parece ser um dos assuntos mais públicos da sociedade contemporânea, a respeito do qual qualquer pessoa, qualquer pessoa, qualquer mesmo, se sente à vontade, no direito e com conhecimento de causa para opinar.

Basta ver que você tem um rebento que o interrogatório começa:

– Você só tem ela?

Como se uma filha fosse algo a se quantificar (até já pode ter sido, em tempos esquecíveis), mas hoje não é mais, e essa pergunta (é a mais comum) soa como se uma criança fosse insuficiente, fosse “só” em oposição a uma quantidade imaginária “suficiente” para as pessoas. Quantos filhos são o bastante? Qual o tamanho de uma família socialmente aceitável, que basta, completa? Alguém me diz?

Como se ter filhos se resumisse, em 2020, a foder (ou inseminar, e etc para as tecnologias reprodutivas), gestar e parir. Ter filhos é um ato com implicações para vidas – do(s) pai(s), da(s) mãe(s), de um sujeito que vem a um mundo caótico e falido, à beira do apocalipse ambiental e social. Ter filhos é um investimento com consequências financeiras para uma sociedade que trabalha cada vez mais para manter o mínimo (não falo de meu lugar de privilégio, obviamente, mas de famílias com condições financeiras cada vez mais apertadas e instáveis).

– Não vão providenciar um irmãozinho (irmãzinha se for o inverso)?

Essa eu adoro, porque vem embutida com a ideia de que mais de uma criança significa necessariamente um “casal”, uma palavra estranhíssima e muito inadequada para definir a situação, porque casal se refere a uma parelha romântica.

Sempre me pergunto por que diabos seria interessante ter um filho e uma filha, em vez de dois filhos, duas filhas, dois meninos e uma menina, duas meninas e um menino, enfim, rebentos. Para experimentar um laboratório de como o patriarcado forma masculinidades e feminilidades?

Ou:

– Quando vai providenciar um irmãozinho?

Essa vai ainda mais longe, porque pressupõe um monte de coisas: que, dâh, obviamente 1) vamos providenciar outra cria; e 2) será um menino..

Seguida de:

– Não pode demorar muito. 

Por quê? Porque estou perto dos 40 e meus óvulos estão ficando velhos? Em 2020 essa já não cola (ainda que as tecnologias de reprodução assistida sejam acessíveis a quem tem muita renda). Além de ser muito ofensivo te chamarem de velha para ser mãe de bebê.

Numa outra interpretação, é como se ter duas crianças de idades próximas fosse garantia de harmonia fraterna (pfff) e que idades distintas significasse criar dois estranhos.

Ou ainda: como se ter duas gestações próximas facilitasse as coisas, tornasse o cansaço menor. “Ah, você enfrenta o pior de uma vez!”. Bem, eu queria dar medalhas pras mulheres que conseguem. Minha exaustão extrema dos primeiros anos da maternidade começou a passar há pouquíssimo tempo – e o cansaço está longe de ir embora, porque na verdade nunca passa, então, caramba, os plot twists da minha vida são meus e não há regras sobre como enfrentá-los ou minimizá-los. 

Nem vou me aprofundar aqui no quão intrusivas essas perguntas pode ser, porque podem resvalar em histórias de perdas gestacionais, abortos passados, violências obstétricas, depressões pós-parto e um monte de outros traumas que estão aí, moldando nossas vidas, e interferem nas decisões de quantidade de crias. Também não custa lembrar que mulheres podem desejar menos crianças por escolhas de carreira, de vida, enfim, escolhas privadas.

PS: nem falem no infame “já fechou a fábrica?”, porque filho não é produto, mãe não é manufatura e vagina não é linha de montagem. 

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