A Turma da Mônica e as sexualidades desviantes

Laços estreou e lá fomos nós. Viajamos 132km para ir ao cinema, porque isso é morar no interior de um país de desenvolvimento tão desigual.

Aqui em casa já tínhamos lido Laços (e Lições e Lembranças), as histórias da Turma da Mônica são instrumento de alfabetização de Cecilia como foram meus.

O filme é lindo. Mesmo que não seja incrível, é incrível e me afeta como a criança que fui, como a mãe que sou, vendo as afetações da trama em minha filha.

E aí, no mesmo fim de semana, li a entrevista de Mauricio de Sousa à Monica Bergamo, na Folha. E entre muitas coisas interessantes e algumas equivocadas (não vou comentar aqui a afirmação política dele), ele diz o seguinte:

“Não sei ainda quando vai vir o personagem gay. Virá quando eu sentir que as pessoas estão aceitando essas situações.”

*

Mauricio afirma, no entanto, que está fora de cogitação que o personagem gay seja da Turma da Mônica. “Temos que criar outra situação. Crianças da idade da turminha [sete anos] são assexuadas”.

Hm.

Crianças de sete anos NÃO SÃO ASSEXUADAS e a gente sabe disso desde sempre ou, pelo menos, desde Freud. A sexualidade infantil é bem documentada e estudada há décadas, e é fato consensuado na ciência que homossexulidade e heterossexualidade se manifestam desde a infância – em alguns casos latentemente, em outros explicitamente. Assim como é fato que a criança experimenta os primeiros contatos com o prazer sexual por meio do toque no próprio corpo, que explora como um mapa a ser descoberto.

Mas o problema com a afirmação bizarra de Mauricio nem é a questão teórica. É o que a obra dele afirma há décadas. Na Turma da Mônica, as crianças são, sim, sexuadas. HETEROSSEXUADAS.

Não surge num vácuo a cena final de Laços, que mostra um piquenique entre a turminha. Num plano, Magali e Quinzinho, namorados; noutro plano, Casão e Maria Cascuda, namorados. Finalmente, uma troca de olhares (raccords, se esse fosse um texto acadêmico) entre Mônica e Cebolinha, o eterno casal do porvir (menos na Turma da Mônica Jovem), que se odeia/ama (nessa dinâmica empoeirada e tóxica de “ele te violenta porque te ama, mas não sabe expressar amor”).

Não surge num vácuo o início do filme, quando Mônica acerta o Sansão na cara do Titi, coelhada destinada a Cebolinha. Titi, por sua vez, estava em frente a Aninha, encostada numa árvore. Titi e Aninha namoram.

Assim como inúmeras crianças personagens da turma ao longo dos anos. Cebolinha apaixonado por Xabéu, Mônica fissurada no Ricardinho. Assim como Chico Bento e Rosinha, cuja relação fornece uma poderosa pedagogia infantil para meninos e meninas namorarem – tem flores, declarações, olhares trocados ao por do sol (sentados no tronco), beijoquinhas, brigas, choros, presentes de dia dos namorados, planos sobre casamento e filhos/as (!).

Diante de tantas evidências, fica difícil acreditar que a MSP defenda que as crianças sejam mesmo assexuadas. Me parece que o problema não está exatamente na sexualidade das crianças, mas na homossexualidade infantil. Quando elas são heteronormativas, tudo certo, tudo nos seus lugares.

Para além da homofobia sutil, esse posicionamento ainda vai contra a tendência contemporânea de reforçar que “criança não namora”. Afastar a infância de vivências adultas da sexualidade (sem deixar reconhecer tal existência) protege as crianças – sobretudo as meninas, suas maiores vítimas – do abuso sexual, do casamento forçado, entre outras práticas condenáveis.

Ou seja, ter um personagem homossexual não significa criar um personagem com namorado; assim como ter um personagem heteronormativo (todo o universo MSP) não deveria significar incutir-lhe relações heteronormativas – as marcas de heteronormatividade se espraiam suficientemente para que as reconheçamos pelo mundo. As sexualidades infantis precisam ser reconhecidas, protegidas e cuidadas, não negadas.

Não faz nenhum bem (e nenhum sentido) negar a sexualidade infantil e, ao mesmo tempo, promover a heteronormatividade.

E mais: dizer que crianças de sete anos são assexuadas é invisibilizar a sexualidade de todas as crianças, mas, especialmente, as sexualidades consideradas socialmente desviantes. Essas, justamente as que precisam de mais proteção, porque são mais agredidas.

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