Souvenirs d’enfance

Abro a bolsa à procura de qualquer coisa. A bolsa é um lugar difícil, às vezes as coisas se escondem de mim dentro dela (eu entendo, se pudesse também me esconderia de mim eventualmente).

Não encontro a coisa, mas tiro um cartão de visita. Tiro outro cartão de visita.

Rememoro as cenas: em algum lugar, Cecilia pega um cartão e coloca na minha bolsa. Em outro lugar, faz a mesma coisa.

Cecilia adora cartões de visita. São os tesouros dela.

Em casa, ela guarda todos numa das inúmeras bolsinhas de tricô, palha, tecido ou plástico que também gosta de colecionar. São cartões de lugares diferentes, estilos variados, reunidos com o único propósito de estarem ali. São a existência deles, e a quantidade, que a alegram.

Olho com amor e profunda admiração a capacidade infantil de atribuir um valor afetivo, arbitrário, a coisas que pra nós, adultos, são puro utilitarismo. Cartões de visita – eles ainda servem pra alguma coisa? Servem: pra Cecilia colecionar, guardar, enfiar na minha bolsa, manter com carinho, cuidado.

De quando em quando, ela senta na cama e passa um por um dos cartões, olhando-os. É, para mim, um dos momentos mais enternecedores da intimidade de Cecilia. Quem ela é.

A infância é isso: selvageria e liberdade, estar à margem e fora das contenções adultas, poder se entregar a prazeres que não são culpados – são apenas felizes.

Que um dia, Cecilia abra uma caixinha como aquela pequena caixa que Amélie Poulain recupera, e seus souvenires infantis sejam esse tesouro de uma vida, uma criança, uma lembrança feliz.

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