Dor e prazer no show do Hot Wheels

Confesso que entrei na imensa arena, lotada, calor de 3000oC, sem muita expectativa. Mas Cecilia adora Hot Wheels.

Começa o show – e é literalmente um show.

Antes dos carros, uma historinha em que quatro amigos estão em busca de um quinto componente para o que chamam de a melhor equipe de hot wheels do mundo. Quarto de menino, camiseta de menino, só aparece uma mulher na cena: a mãe do Serginho, que está de mudança para o bairro e será o quinto integrante.

Entram os carros (depois motos, depois caminhão), e o espetáculo é mesmo incrível – para além do cheiro de pneu queimado e da fumaça. Testosterona pura.

O cenário da arena imita o quarto do garoto: tudo em tons de azul, laranja, cinza, verde. Na cena do filmete que se intercala com a apresentação ao vivo, idem (a mãe, que dá instruções para o garoto, usa branco).

Mas a todo o tempo, algo me incomodava: a insistência no reforço de Hot Wheels como uma cultura de meninos – e, depois, de homens, os pilotos do show ao vivo. Por que não poderia ser uma menina a se mudar pra casa ao lado? Por que não poderiam ser meninos e meninas montando pistas e brincando de carrinho?

Para marcar essa posição, além de eliminar qualquer materialidade feminina, a Mattel parece temer qualquer cor que remeta a versões hegemônicas de feminilidade e exclui vermelhos, rosas, lilases, roxos de vista. Como se um pingo de rosa fizesse escorrer pelo ralo a frágil masculinidade emanada pelos carrinhos de ferro, as pistas alaranjadas e a penca sem fim de acessórios (caríssimos).

Durante o show, me julguem, mas pensei em Ien Ang, angustiada com o fato de estar adorando e sofrendo. A autora afirma que há um limite para a politização da arte, da cultura (e do lazer, completo) – há algo do prazer que escapa a nossas vigias e que não pode ser domesticado.
Sim, o show do Hot Wheels é machista; sim, o show é sensacional.

Saímos do espetáculo de boca na indefectível lujinha vinculada. Lá, em meio a infindáveis brinquedos e acessórios, vejo exposta em lugar privilegiado a camiseta-uniforme da turma do show. Lindona ($$$). Quis comprar para Cecilia exibir, com orgulho, seu direito a também ser dessa turma.

Aí me lembrei de Fernanda Roveri, no excelente Barbie na educação das meninas: do rosa ao choque, quando analisa a cultura Hot Wheels como uma resposta mercadológica à Barbie produzida para os meninos. Decidi não desafiar a Mattel dando dinheiro… à Mattel.

Cecilia tem carrinhos da Hot Wheels; adora brincar com eles. Cecilia não é um menino. Hot Wheels é feito para ela?

PS: o trem todo foi no Beto Carrero.

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