Gritos e sussurros

A vida de mãe tem muitos imprevistos, muitas surpresas, nenhum cacete de um manual pra ajudar a gente. Mas pelo menos na minha maternidade temos muitas rotinas, o que tem me preparado para como lidar com as coisas. Ou não.

Entre elas existem as rotinas insuportáveis.

Cecilia rotineiramente reclama das meias. Aparentemente cada meia tem um fio invisível que não pode pegar em alguma parte indefinível do pé. Então, todo dia vivemos o drama de calçar a meia certa (porque não pode ser nenhuma meia com detalhes na planta do pé) e calçar as meias certo – desse jeito muito muito muito específico.

Cecilia também acredita que se secar depois do banho é um processo passivo: você coloca a toalha em volta do corpo e fica lá, parada, esperando as gotas evaporarem. Bem, eventualmente elas evaporam, em meia hora, em média.

Além de essas e outras coisinhas absolutamente irritantes acontecerem, elas costumam acontecer quando não temos tempo de tirar e colocar meias e tênis, de esperar a água do mundo evaporar.

Geralmente, acontecem quando a gente não tem tempo pra nada.

Costumo começar conversando; depois parto para o convencimento; finalmente, chego à chantagem. Um ou outro dia em que nada resolve e a coisa desanda, a criança vai para a escola chorando. Nessas horas, cadê o manual, gente?

Mas enquanto todas essas coisas se desenrolam na minha frente, como um filme repetido, se no mundo real sussurro (mentira; tento falar calmamente), na minha cabeça grito como louca. Se esse idioma tivesse legenda seria mais ou menos assim:

“Filha, calça a meia, por favor, que a gente tá atrasada.”
(merdacaralhocaceteputaquepariubucetacalçaaporradessameia, menina!!!!!!)

Não falamos palavrões com Cecilia, nem perto dela (bem, alguns a gente soletra entre a gente, uma artimanha que vai acabar em breve). Foi uma decisão não muito pensada, mas acordada suave e definitivamente entre nós. Só que de vez em quando Cecilia cria tanta confusão que tenho vontade de soltar todas as palavras feias (e bonitas, mas gostosas de xingar) em alto, bom e claro som pela residência, pelo automóvel, pela janela.

Às vezes penso como vai ser o primeiro dia em que os palavrões saírem. Vai ser tipo o asteroide caindo na Terra e devastando tudo que vê pela frente, matando dinossauros.

Nada feminista, nada boa-mãe, nada correto, nada zen, nada calma, nada racional. Aliviada.

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