Barbie dita Frida

Depois perguntam por que as feministas estão com raiva

Ganhei minha primeira Barbie por volta de 1985. Era a Barbie baiana, que incrivelmente mexia os ombros e dobrava as pernas. Ao longo da vida, tive só mais duas bonecas. O que tinha em abundância eram sapatos, roupas, óculos, bolsas, móveis, apetrechos e uma infinidade de brinquedos que espalhava do meu quarto até os corredores da casa para brincar de Barbie, até por volta dos meus 15, 16 anos.

Sim, brinquei de Barbie e sobrevivi. Bem poderíamos nos perguntar: “Então, que mal tem brincar de Barbie se todas nós estamos aqui, inteiras?”

1) Sobre o inteiras, falem por vocês.

2) Aquele mundo de 1985, e mesmo o mundo dos meus 15 anos, já era. Desapareceu. Não há mais lugar para uma boneca que vende às crianças ideais de branquitude (não adianta lançar UMA boneca negra por estação para que ela se sinta tão excluída quanto as meninas negras porque podemos apontá-la de tão diferente do resto da ~galera~), juventude, magreza e beleza em 2018. Não importa se essa boneca diga às crianças que elas podem ser o que quiserem (rárárá), enquanto mostram aquele mesmo corpo ambiguamente sexuado/assexuado, congelado num falso sorriso domesticado, com uma cintura inumana, roupas perfeitas, maquiagem perfeita, pele intocada por espinhas.

Não há mais lugar para uma boneca que se alimenta pelo desejo e pelo aumento do desejo das crianças por aquele ideal. Uma boneca que é sinônimo de venda/consumo. Que reproduz incessantemente novas formas de enredar as meninas em estratégias de consumir para ser. Você pode ser veterinária (basta comprar esse kit aqui, aquele cachorrinho imóvel ali, nosso incrível jaleco fashion acolá…), nos diz cada propaganda da Barbie.

Não há lugar para aceitarmos impunemente uma empresa canibalista como a Mattel, que diz falar às crianças mas é capaz de lançar uma boneca que grava as falas das suas filhas (porque é uma boneca predominantemente feita às filhas) e faz uso comercial opaco desses dados. Uma boneca que se vende como a melhor amiga da menina, ou quem você quer ser, e depois guarda os segredos dessas meninas sabe-se-lá em que nuvem. Que briga contra qualquer informação que destoe da sua auto-imagem construída ao longo de décadas nos tribunais, em guerras publicitárias e de relações públicas. O livro de Fernanda Roveri fala sobre isso.

Isso não é sério, é?

Mas isso é a Barbie 364 dias por ano. Pois no dia 6 de março, antevéspera do dia internacional das mulheres, uma data de luta, de resistência, a Mattel me comete (comete a mim, pessoalmente; cada um acha o que quer) a pachorra de lançar uma Barbie dita Frida.

Dita porque na minha concepção esses termos são aporísticos.

Frida Kahlo foi uma artista que escancarou na arte as chagas do próprio corpo, as feridas da vida, e explorou sua imagem, imperfeita e forte, em auto-retratos. sobretudo, numa produção artística rica e muito particular.

E daí me vem a Mattel e coloca uma boneca com sobrancelhas milimetricamente esculpidas, alta, com um corpo perfeito, lábios grossos, com flores de plástico no cabelo, e diz que aquela é Frida. Frida, minha gente, era comunista. Não uma boneca de 249 reais.

Frida teve pólio e depois quase morreu num acidente de bonde. Frida mancava, usou pinos nas pernas e coletes na coluna. Frida sentia dor. E era uma artista de intensa vivacidade. Não uma boneca imóvel que da original preserva apenas uma sombra distorcida.

Sim, vivemos no capitalismo que transforma tudo em produto. Frida, inclusive, já é um produto há tempos. Mas mesmo dentro desse sistema a gente pode escolher o que consumir. Quer uma boneca Frida? Compre de um artesão ou artesã local, que faz essa personagem por alguma razão que não praticar um verniz inclusivo em cima de ícones feministas para gerar lucros aos acionistas. Compre uma das biografias infantis sobre Frida, todas muito bacanas e informadas, compre um livro com telas da Frida, vejam o filme com as crianças (já crescidas). O consumo também pode ser político.

Eu brinquei de Barbie e sobrevivi. Entendo o apelo que essa boneca tem. Mas para ter chegado até aqui nos pedaços que sobram, precisei tirar de mim muitos pesos; um deles foi de uma boneca que me mostrava sempre o que eu não era, nem nunca seria, devido à sua falta de diversidade real (não fabricada), à sua humanidade.

3) Por conta disso tudo digo muito tranquilamente: essa Barbie é dita Frida.

4) E digo também: nossas meninas precisam mesmo de uma Barbie dita-Frida para se sentirem empoderadas? Nós precisamos gastar 249 reais para empoderar crianças? E se precisamos (não, gente, não precisamos – mas podemos querer), por que não consumir outros modelos de empoderamento menos artificiais, menos canibalistas, mais inclusivos?

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