Pelo direito de ziguezaguear

Dez para as sete da noite. Acabou o papel em casa. Corrida contra o relógio. Dobramos a esquina da catedral e Cecilia, como todas as vezes em que cruzamos aquela esquina, quer subir os degraus e fazer de cada um deles uma montanha. Quando chega às grades bicentenárias, estamos no ponto mais tenso da aventura; a exploradora precisa atravessar um despenhadeiro estreito com a ajuda de cipós.

Agarro as mãos de Cecilia: naquele dia não. Sete da noite é o toque de recolher universalmente conhecido na cidade. Nada mais funciona. Preciso comprar uma resma – que, curiosamente, a atendente da papelaria não sabe o que é; em Minas a gente chama chamex de 500.

De repente, naquele dia me transformei nos adultos chatos que tiram das crianças toda a diversão de andar na rua. Sim, porque adultos não se divertem na rua. Eles vão de um ponto a outro. Ocupados, determinados, focados. Já as crianças brincam de não pisar nas linhas, de só pisar nas linhas, de subir nos degraus, de tocar campainhas e correr. As crianças devaneiam. Não precisam de um propósito; podem se divertir.

O problema – para os adultos – é que se divertir ocupa espaço. A aventura expande, abre, agiganta. Anda para lá e para cá. Muda de ideia. Nas linhas incertas das calçadas barrocas, evitar as armadilhas não implica em geometria, mas em perambulo.

Enquanto as crianças ziguezagueiam, os adultos bloqueiam, impedem. As ruas estão cada vez mais hostis às crianças. Perigosas, calçadas encolhidas, dominadas por carros, bicicletas, gente andando apressada, obra, trator, o risco. O risco que leva ao medo. O medo, sempre ele, o companheiro invisível da parentalidade.

A rua anda respirando produtividade. E tudo que uma criança não faz – nem precisa fazer – é ser produtiva. Por isso as crianças na rua irritam os adultos. Eles desviam daquele caminhar improdutivo, ocioso, deliciosamente inútil e tão rico olhando feio, bufando, recriminando silenciosamente, pedindo licença com a voz cortante para sua filha que adora competições de não pisar na linha ou fazer de conta que está na corda bamba.

Houve um tempo em que eu pedia desculpas. Parei. A rua não é mais nossa que de uma criança. Nós apenas temos mais força física para impor o espaço. Antes, também era uma adulta chata com minha filha (ainda sou, mas não nessa parte). Arrastava Cecilia rápido pela rua, com foco; ela resmungava, queria assustar pombos, atravessar só para pisar naquela pedra específica.

Parei (menos quando tem papel pra comprar).

Em vez disso, passei a sair com mais tempo para que ela desfrute o andar na rua, não só me siga dum canto pra outro. O tempo espremido é o meu, não o dela. Tem dias, claro, que a necessidade de comprar um enorme bolo de papel A4 antes de todas as lojas da cidade fecharem, ao mesmo tempo, vence qualquer tentativa de maternidade menos desesperada.

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