Minha filha não é um outdoor

Há algum tempo procuramos capacetes+joelheiras para a pequena. Só encontramos o tradicional mar de rosas e pinks de um lado e o mar de rosas e pinks com logomarcas e desenhos de barbies e sofias de outro. Encontrar capacetes de qualidade que não sejam produtos marketizados exige gastar mais.

A dominação de araras, estantes, caixas de sapatos, brinquedos por personagens é surreal. Para onde se olhe, a escova de dentes é do Mickey; a pasta de dentes, da Lilica; a blusa, da Elza; o patinete, da ladybug; as crocs, dos Minions.

É possível comprar roupas, acessórios sem os famigerados ~personagens~. Mas, em geral, são mais caros (e, muitas vezes, têm mais qualidade). Ainda assim, o licenciamento costuma “agregar valor” e dindim às etiquetas. Nas lojas de fast fashion, onde as peças costumam custar menos, não se engane: custariam ainda menos não fosse a exploração de marcas como Disney, Mattel, Marvel, Hasbro, DC e afins.

Além do sobrepreço que a gente paga àquela peça de roupa que só porque tem uma estampa com marca registrada vira commodity, a criança anda por aí estampando marcas, incitando o ciclo interminável do consumo – que não traz benefício algum a ela – desejando consumir não apenas roupas, acessórios, brinquedos, mas consumir, devorar, os personagens, viver o próprio consumo – e do consumo.

Eu não sou (muito) idiota (- só um pouco). Sei em que mundo vivemos. Sei que a infância é atravessada pelo consumo, em maior ou menor grau (das crianças e dos pais e mães). Sei que a infância e o consumo são atravessados pela cultura pop, que nos envolve, engaja.

Eu não crio uma ET. Ela está no mundo, conhece o mundo, responde a ele, o aprende e apreende. Mas também não crio um outdoor. Evitamos ao máximo os produtos licenciados ~de personagens~ e os que damos a ela, fazemos entender como especiais, únicos, exceções. São de coisas que Cecilia realmente gosta, muito e muito, não modas passageiras que exibem por aí marcas a torto e a direito e fazem da criança uma mídia publicitária tão ou mais eficiente que a TV, e gratuita (pra marca, não pros pais).

Falo tudo isso, como muitas coisas, do alto de um privilégio que pode pagar por roupas básicas/alternativas. Que pode comprar peças mais caras, em que o valor inclua pagamentos justos à força produtiva, no lugar de royalties sobre a imagem de barbies da vida. No fundo, a escolha é entre remunerar pessoas ou remunerar corporações; fantasias. Como há outras maneiras várias de sustentar a fantasia, prefiro remunerar pessoas, ainda que custe mais.

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