Boneca de pano e a perversão escolar

São 22h59 do sábado quando costuro o último tufo de lã marrom à cabeça da boneca. Estou em frangalhos, física, mental e emocionalmente. Minhas costas doem, meus dedos latejam, estou cansada de remendar uma boneca de tecido e absolutamente frustrada diante do fracasso.

A boneca é um “eu-Cecilia” passado pela escola como tarefa. A primeira pergunta é: a quem? Uma criança de quatro anos não tem condições de, sozinha, encher a boneca com espuma e fechá-la; costurar a roupinha; costurar a lã do cabelo. A participação da pequena fica restrita à escolha de retalhos ou da cor dos cabelos.

A tarefa, claro, era para mim, como são, na verdade, muitas tarefas da escola contemporânea. Há um tempo, André e eu ajudamos a criança de um amigo com a tarefa porque os pais não tinham sacado as perguntas. À primeira vista, a gente também não sacou. A quem servem tarefas desse tipo, que desafiam os pais e excluem as crianças da atividade de fazer o trabalho acompanhada dos responsáveis? Por que operar a inversão perversa entre o aprendizado dos filhos supervisionado pelos pais para uma situação de incapacidade dos pais assistida pelos filhos?

Me senti tão apartada da escola como quando não conseguia resolver os problemas de matemática do ensino médio. 

Uma outra pergunta martelava na minha cabeça enquanto concluía uma boneca desconjuntada, com a roupa torta e os cabelos desiguais (desisti de fazer os sapatos no meio do caminho): por que a escola da minha filha insistia em me jogar para a posição que rejeitei há tantos anos? Nada do que eu estudei, nenhuma das minhas realizações me preparava para ser uma costureira decente daquela atividade. Logo, meu preparo não era o de uma boa mãe, mas de uma mãe insatisfatória, que não passa na prova das prendas femininas. Todo meu ativismo dizia que essa imposição é uma babaquice; ainda assim, lá estava a boneca malfeita na minha frente, a vida me jogando na cara que a teoria nem sempre é consolo.

Em tempo: a gente gosta da escola. Sabemos que nenhum colégio é perfeito, ainda mais num cenário de poucas opções como o nosso. Mas às vezes a corda estica a ponto de quase romper. 

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Um comentário sobre “Boneca de pano e a perversão escolar

  1. Bela reflexão. Minha filha também tem 04 anos, mas ainda não recebi tarefas tão árduas assim da escola em que ela estuda. As vezes recebemos outras do tipo trazer tal coisa amanhã ( que geralmente não tenho em casa) para uma atividade e eu tenho que sair do trabalho correndo e providenciar

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