Nosso gesto primal

Hoje Cecilia caiu de bumbum enquanto andava de patinete. Bateu o cóccix. Correu chorando para mim e se agarrou ao meu corpo, braços e pernas, para passar a dor e se acalmar. Esse é nosso gesto primal; mamífero. É a maneira mais íntima pela qual a maternidade se efetiva, em mim, há quatro anos e oito meses.

Quando Cecilia nasceu, não veio para os meus braços; fui para a mesa de cirurgia de óculos, para vê-la melhor, e a observei partir rumo à UTI neonatal. Não pude tocar a pele dela nos primeiros dias nem pelo buraco da incubadora; por conta da bolsa rota, tive infecção respiratória e só podia entrar na UTIN paramentada com máscara e luvas e banhada em álcool gel.

Também não podia ordenhar leite para amamentá-la, por conta dos remédios. Quando finalmente fui liberada pelos médicos, ficava horas na sala de coleta do hospital, sempre acompanhada de pelo menos mais uma mãe de UTI, cada uma ordenhando leite materno num vidro esterilizado. Invariavelmente meu potinho era o mais vazio. O ranço do cheiro de suor, leite materno, álcool, pomadas para aliviar a mastite, ainda são frescos para mim.

Com sete dias, colocaram Cecilia no meu peito pela primeira vez. Ela não teve nenhum interesse. Mentira. Ficou cinco segundos perto, depois foi dormir. Nos dias seguintes, todos eles, tentamos fazê-la mamar.

Meu peito foi escrutinado por pediatra, ama de leite, enfermeira, fonoaudióloga. Ordenhava leite e dava a ela via sonda ou translactação, antes do complemento (vulgo fórmula). A fonoaudióloga fazia exercícios diários para ensiná-la a sucção.

Cecilia tinha vinte dias quando a fonoaudióloga e a fisioterapeuta da UTI sugeriram que eu a colocasse de cavalinho: de frente pra mim, sentada, pernas abertas, rosto virado para o meu peito, minhas mãos apoiando o corpo dela. Minha filha aprendeu a mamar.

Não havia livre demanda; bebês prematuros às vezes dormem muito e não acordam para comer. Às vezes, não têm força para chorar de fome. Então, de três em três horas colocava Cecilia em minha coxa. De vez em quando precisávamos despertá-la (o que poderia incluir passar um algodão molhado no corpinho), senão ela não comia. Ela nunca acordou de madrugada, nunca gritou de fome, nunca mamou muito.

Durante esse tempo, André também amamentou. Quando eu estava destruída, cansada, era ele quem colocava a parafernália da translactação no dedo mindinho e o oferecia à filha. Com seis, sete meses, Cecilia largou o peito.

Desde aquele dia, 20 dias depois de chegar apressada, essa tem sido a maneira que nos aconchega, com ou sem leite. Sentada, com as pernas abertas já grandes demais, rosto afundado no meu corpo, braços me abraçando, Cecilia dorme, chora, conversa, confidencia, espera, descansa, toma banho.

Nada nos manuais, nas conversas, nas consultas, me preparou para o parto cirúrgico, para a UTI, para os aparelhos, para a hipotonia, para a APLV, para duas idades, para a ordenha, para a fórmula. Diante de tantos relatos de happy endings, eu enfrentava as estatísticas da exceção.

Nada disso me entristece, nem na lembrança. A vida é como é; como pode ser. Tudo que Cecilia e eu vivemos faz parte da maternidade, da minha maternidade, e se os feminismos se constroem sobre as experiências, é também a possibilidade que determina as experiências, não apenas a potência.

E nossa experiência se constrói também a partir do que nos foi possível: a cada abraço à cavalinho, a cada vez que entramos no banho juntas, à noite, só pra deixar a água quente cair nas costas. É como nos lembramos do que somos. Mãe e filha.

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