Meu reencontro com Jane

Aquarela: Lívia Barreto

Faz pouco tempo completou três anos que defendi minha tese de doutorado. Desde o dia em que terminei de preparar o power point de inexplicavelmente mais de oitenta megabytes que iria apresentar à banca, me afastei e me escondi da mulher a quem havia perseguido – e que me perseguiu – por quatro anos.

Jane Austen foi objeto, obsessão e sombra enquanto durou o doutorado (na verdade, desde que a descobri, na estante 820, tantos anos antes, na adolescência, na graduação e nos bancos sob os bambuzais). Ao mesmo tempo, a tese não se tratava dela, mas sim de algo vagamente próximo, mas profundamente incrustado em Jane – nunca poderia ambicionar à Austen, apenas como leitora.

E então nunca mais abri, li, assisti a nada que me remetesse à inglesa, até tentar ler um livro sobre ela – uma das infinitas apropriações culturais sobre Austen; no mundo moderno se chama mashup. Fechei na quinta página. Mentira. Deletei o arquivo do ipad.

Eu havia envelhecido? Meu doutorado se tornara irrelevante? O feminismo arruinara meu senso de humor (sim, um pouco, mas sobrevivo – aos trancos)? O livro era ruim? Tudo junto ou nada disso?

Tempos depois, a Netflix me mostrava insistentemente a versão cinematográfica do livro, mesmo sem eu nunca ter revelado a eles meu passado com Jane. Numa madrugada insone, todo mundo dormindo, cliquei no arquivo.

O filme, que é ruim, me enterneceu profundamente. Primeiro porque me reencontrou com aquela mulher, de quem mal se conhece a verdade sobre o rosto. Em segundo lugar porque me reencontrou com Felicity, a jovem que nunca fui.

Quando Deleuze discorreu sobre as maneiras pelas quais a arte nos afeta, certamente não se referia às potências de um filme como Austenland. Mas quem se importa? A cultura, os objetos diante de nós, nossos pequenos mementos fragmentários, nos afetam como somente nós somos capazes de perceber, e como nem sempre outros são capazes de compreender e compartilhar.

Certamente, alguém que não precisava fazer as pazes com o doutorado, com a tese, com Jane e com o fracasso não ficou afetado com o filme como eu.

Reencontrar Jane foi, também, emoldurá-la na parede e celebrar a matriz narrativa dos amores a que me dediquei e me dedico. Foi aceitar, reconhecer e celebrar um esforço que fiz na vida, esses quatro anos de doutorado. Um passo que me afasta da insegurança diuturna.

A pequena Jane Austen

Coincidentemente, desde bebê Cecilia gosta muito de ler A pequena Jane Austen comigo. É uma tradução preciosa da Martins Fontes da série de baby lit de Jennifer Adams (traduzam todos!). No caso desse volume, Orgulho e preconceito é usado como estratégia para aprendizado matemático. Assim: 6 irmãs, 10 cartas, 9 casas… Uma lindura sem fim (Rafiza que deu).

Cecilia já vinha me encontrando com Jane antes de eu me dar conta.

(Essa ilustração foi feita pela talentosíssima Lívia Barreto para minha tese. Agora mora na parede)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s