Minha filha inscreve um idioma em mim

Meu corpo foi invadido.

Meses depois, minha filha nasceu de mim, evadiu-se, e me deixou um corpo estranho, que não me pertencia, no lugar.

Esse corpo era, então, um idioma que não sabia mais escrever. Irreconhecível e inaudível. Analfabeta de mim, as roupas eram as de outra pessoa, as marcas, as de uma outra vida, o peso de uma outra mulher.

A língua do desejo, meu marido continuou a escrevê-la em meu corpo, mas minha filha sabe um outro idioma, que inscreve em minha pele diariamente.

Só conseguiu tirar leite quando se agarrou a mim, sentada, pele a pele, eu e ela nos segurando. O abraço índio ainda é o conforto preferido, anos depois do peito.

Onde minha língua pronunciava gordura, minha filha enxerga maciez. Ela diz mo len ga.

Ela diz co li nho para rodopiarmos embaixo do chuveiro.

Os excessos da barriga são o lugar preferido para dormir. Ela diz bar ri gão.

Onde minha língua escreve estria, ela inscreve a história da vida e dos afetos dela. Os furos são a suavidade em que ela inscreve o toque.

Meu corpo é a língua materna de minha filha. É o idioma onde ela se aconchega no meu peito, o carinho que faz em minhas bochechas e me diz bo che chu da.

Cecilia me ensina a falar outra língua. A escrever em mim um novo idioma, que me diz do corpo em que habito, presente e fantasma de um corpo que já escrevi.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s