As cidades e as crianças

pracavale_imagemLeio com espanto, nos últimos dias, o desenrolar do caso das crianças proibidas de brincar nos pilotis de um bloco residencial do Plano Piloto, em Brasília.

Mentira.

Não me espanto.

Em dezembro, li uma edição do Campus, jornal-laboratório da UnB que um dia foi o meu. A reportagem de capa também fala sobre crianças impedidas de brincar no quadradinho: no Setor Noroeste, meninos e meninas indígenas são expulsos dos playgrounds (e não dos pilotis) porque não moram lá e os equipamentos seriam ofertados apenas às crianças do bairro. Os vigias contam que são exortados por síndicos e pais a mandarem as crianças embora.

No mesmo dezembro, levamos Cecilia ao Parque Ana Lídia, reduto nostálgico e atual das crianças brasilienses. Ela adorou. Como havia chovido no dia anterior, brincou em balanços submersos por imensos buracos onde deveria haver areia mas havia criatórios de mosquitos. Todo o Ana Lídia está repleto de buracos, poças dágua, brinquedos enferrujados. Ainda é um lugar mágico para que as crianças subam no foguetinho. Mas magia decadente.

Alguns dias depois, andamos por Taguatinga à procura de um parquinho. Um não tem um centímetro de sombra, então os horários de se empoleirar nos ferros dos brinquedos ou pisar na areia eram restritos. O outro, perto do posto policial (vazio), estava aberto, mal cuidado, com grama invadindo pequena área de brincar. As gradinhas de ferro descascadas, o balanço troncho. Ao lado, os equipamentos esportivos para idosos reluziam nas pinturas amarelas-vermelhas.

Perto do prédio do meu pai havia um parquinho público lindo, novo, com brinquedos releitura de nossos antigos trepa-trepas. Um belo dia, evaporou. Era uma área privada e, oras, ninguém quer parque de criança em área de especulação.

Aqui há um grande parque público, construído e até dois anos atrás financiado pela Vale. Outro lugar mágico, mas já precisa de reparos. Hoje está aos cuidados da prefeitura e da universidade, com sucessos e fracassos. Fecha às 17h, mas a maioria das crianças sai da escola às 17h30. De manhã, se tem sol, também fica difícil brincar. Imagine, parquinho de mineradora, na cidade da mineração, é de ferro… 

Além desse parquinho público há o quê? Há praça linda, uns gramados. Nos bairros achamos uns brinquedos aqui outros acolá, a maioria velhos ou acanhados. Não há outros bons lugares pra balançar Cecilia, ela que adora balanços.

Tem quem possa não precisar de parques ou pilotis para crianças brincarem. Há os shoppings e suas atrações demarcadas por cerquinhas, com pulseiras de identificação e monitores (que não condeno; de quando em vez a gente se joga na piscina de bolinhas. Mas quem pode pagar a brincadeira infantil a R$ 1,00 o minuto?), privilégios da classe média/alta deixar o filho em segurança brincando enquanto bate perna.

E quando os brinquedos infláveis das férias são esvaziados? Confinamos nossas crianças porque a rua, o mundo, tudo que não está regulado e murado, é perigoso. Há balas perdidas à espreita. Possibilidades de atropelamento. Pedófilos. Abusadores. Assaltos. Escola, casa, quintal (outro privilégio dos espaços amplos), atividades lúdico-educativas, esportes. Tudo entre paredes.

E, por seu turno, as ruas rejeitam as crianças. São perigosas, produtivas, devem correr em fluxo nas vias e calçadas, reguladas por luzes e placas. Não há espaço pros tempos esticados de uma menina de 4 anos, que gosta de andar pisando/não pisando nas linhas, e que muda as regras fora do tempo do semáforo. Não há espaço pros gritos das meninas escoarem no mármore reformado embaixo do bloco. Não há lugar pras crianças indígenas expulsas, primeiro da aldeia, agora dos playgrounds. Não há verba para construir ou reformas equipamentos públicos lúdicos infantis. Quem tiver dinheiro que compre um pula pula ou balanço de plástico.

Crianças não são “público”, porque esse espaço certamente não pertence a elas. Penso sempre, releio bem, esse texto aqui, sobre como se locomover nesse mundo tendo 1,05m de altura. Sendo alien. http://piseagrama.org/devagar-criancas/

 

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