“Muito velha ou pouco velha?”

 

Este ano foi a primeira vez em que não consegui, com facilidade, encostar as mãos nas pontas dos dedos dos pés com as pernas esticadas. Lá pelo meio do ano as dores de cabeça me sugeriram que os olhos já não enxergavam mais (mal) como antigamente, mas ainda pior. Pensei que fosse presbiopia, uma doença que, nos meus preconceitos pessoais, sempre associei ao envelhecimento – apesar de não ser apenas isso, obviamente.

E aí Cecilia entrou na fase de tentar compreender e ordenar o tempo. Das tarefas, do ócio, da vida, do dia, da semana, do ano. Perceber as faltas, a contagem das horas, a passagem dos dias. A diferença entre daqui a pouco e mais tarde, a necessidade da espera. Ontem, hoje, amanhã, fim de semana, que dia tem natação. Infância e velhice.

“Mamãe, você é muito velha ou um pouco velha?”

Foi no contexto einsteniano que Cecilia me fez essa pergunta. Uma das poucas que me desconcertou. Até então, sempre havia me sentido jovem (xóvem), apesar de a juventude vir escorrendo rapidamente da minha vida, fugaz que é.

Respondi que ainda era jovem, mas é mentira. A verdade é que já sou um pouco velha, assim como Cecilia, a cada centímetro que cresce, já é um pouco mais velha que a neném prematura que nasceu antes da juventude.

Aquele meu ímpeto irresponsável juvenil já passou, certamente. A idade bate à porta e é no corpo que se manifesta com mais intensidade.

O corpo feminino, condenado à eterna juventude se quiser ser reconhecido. Caso contrário, entra na espiral de desaparecimento, invisibilidade, auto-condenação e reprimendas. Envelhecer é difícil, um processo pessoal penoso por si só, que o mundo vê porque o corpo informa – cada músculo menos ágil, cada doença nova, cada precaução inédita. Esse mesmo corpo que também testemunha conquistas, mudanças, melhoras, filhos.

Ainda não preciso me preocupar com vista cansada – era aumento da miopia, no fim das contas. Mas me repensar como um pouco velha e não mais como jovem exige um esforço tremendo. Tem dias que não penso. Em nada, aliás.

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