Sofia, a princesinha escrota

Temos achado que uma política melhor que a proibição das princesas é a mudança de foco. Toda vez que se fala em Elsa, falamos em Merida. Falam em Branca de Neve, falamos de Dorothy. Falam em Rapunzel, falamos em Alice. Sempre que apontam uma princesa, lembramos que também é uma garota, uma mulher.

Mas para tudo há um limite. Meu limite se chama Sofia. Uma vez estávamos no quarto, depois do almoço e, enquanto eu arrumava o cabelo de Cecilia, (o desenho d) a princesinha Sofia começou. Era um episódio sobre o aniversário do mordomo, babá, criado, faz-tudo Baileywick. O irmão viria para o dia de folga dele, e os dois passariam o dia juntos pescando, uma tradição de família. Mas… Sofia tem um problema, e é claro que o pobre do Baileywick não consegue escapar por um segundo.

No fim do dia, ele trabalhou o tempo todo no que era para ser sua folga cuidando das necessidades mimadas da princesinha e seus meio-irmãos (nem vou falar de Amber, a personagem mais esnobe dos reinos encantados animados que já vi). Em vez de se desculpar, Sofia organiza às pressas uma festinha de aniversário para o mordomo e diz a ele: “Você é como se fosse da família”.

Mentira, Sofia. Baileywick é um trabalhador doméstico que, pela necessidade e pelas relações complexas que se estabelecem nesse tipo de emprego, se sujeita a perder a vida pessoal em função das vidas pessoais dos empregadores; está sempre à disposição; sempre de cabeça baixa (ainda que na aparência o olhar seja alto); coloca seus desejos em segundo plano e as futilidades dos empregadores em primeiro.

Tive nojo de Sofia e dos valores que ela perpetua.

Uma coisa é pensar nas princesas como as moças indefesas, exploradas, passivas dos contos tradicionais; as mulheres que estão presas, adormecidas, escondidas, à espera do beijo, da libertação, do amor, da submissão. Outra é assistir a uma princesinha franchise do século XXI que não precisa de vetor para si; ninguém a faz desse jeito nem a liberta: Sofia é que é a escrota.

Foi a primeira e única vez em que Sofia apareceu na TV aqui de casa. Nem deu tempo para entender o desenho por completo (Sofia é filha da segunda mulher do rei e, por isso, virou princesa. O mote do desenho é que ela se adapta à vida na realeza. Pelo visto, se adaptou muito bem a certa elite que se acha no direito de tudo e só consegue olhar para si).

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s