Sobre acolhimento

Estudos e relatos sobre como o ambiente acadêmico é machista e sexista existem aos montes (e provam, ainda, que educação formal não é sinônimo de cidadania). Mas, de vez em quando, a academia nos abre os braços.

Semana passada fomos a Florianópolis apresentar um trabalho bastante caro a nós. Não tinha com quem deixar Cecilia. Cecilia foi conosco. Aimeudeus, pensei, em vários momentos.

Havia reuniões de que nós dois queríamos, juntos, participar. Havia um artigo produzido a quatro mãos e que ambos queríamos apresentar, dialogando.

E havia Cecilia, excitada com a viagem (Cecilia AMA hoteis), entediada a cada cinco minutos com as brincadeiras a que, em casa, dedica pelo menos meia hora.

Fomos à reunião e, enquanto outros falavam, eu fazia barquinhos de papel colorido. André pintava. Quando chegou minha vez de falar e sair na foto, havia uma criança adormecida em meus braços.

Na apresentação do nosso artigo, ao mesmo tempo em que falava eu fazia patinhos de massinha de modelar. E Cecilia desenhava no quadro, passeava pelo pai.

Em nenhum desses momentos houve caras feias, reclamações. Houve acolhimento e compreensão coletiva de que mães e pais precisam conciliar atividades profissionais com a criação dos filhos; e a noção, bastante simples, de que crianças não ficam sentadinhas, acomodadas, em cadeiras duras, por três, quatro horas, como adultos fazem (certas elas, as crianças).

Fiquei imensamente aliviada depois do cumprimento das obrigações, e Cecilia fez do campus um parquinho.

Antes de dormir, lembrei que, quando menina, passava os dias na escola enquanto minha mãe trabalhava. Percorri tantas vezes os corredores de azulejos brancoscinzasazuis que, de olhos fechados, sei dizer em qual sala estudei a cada ano da vida escolar; onde me sentava para ver os coelhos; de onde gostava de olhar para a quadra, lá do alto.

Também me lembrei do Theo, quietinho na sala enquanto Rafiza participava de reuniões, bancas, coisas. Nunca havia pensado em Theo desse jeito, incrível. Nunca tinha me dado conta, antes de ser mãe, o que representava Rafiza levá-lo.

Encontrar na academia um espaço de empatia, em meio a um mundo que relega as crianças a espaços privados, ao ~não incomodar~, à vitrine silenciosa e imóvel da boa educação embrulhada em papel e distante das vistas, é um alento.

Perceber, mãe, como outras mães têm lutado para criar filhos muito antes de você é um reconhecimento envergonhado e tardio da maternidade pouco glamurosa, mas muito real.

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