Foto: LIncon Zarbietti/Circovolante 2016. Roda de palhaças.

O palhaço e as palhaças

Flashback enevoado

Um dia chuvoso de 2015, levamos Cecilia ao circo. Aquela experiência mambembe, um tanto nostálgica, da lona, cadeiras de plástico dispostas em um semicírculo quase cheio, formas distantes do imaginário circense (que imaginário circense?, aliás). Algumas acrobacias dão errado, as facas do atirador caem no chão em vez de cravar a madeira. A trapezista se enrola com o tecido. Cecilia comeu muita pipoca, nós também.  Um palhaço faz apresentação solo.

Não me lembro detalhadamente das piadas. Mas tratava-se de um palhaço macho alfa homofóbico, então houve simulação de ato sexual no palco; insinuações sobre roupas curtas; trejeitos considerados bichas (e a rejeição a eles); uma enrabada de faz-de-conta. Ainda teve participação da plateia, e obviamente uma moça foi escolhida como objeto sexual; um rapaz foi selecionado como o viado.

André e eu assistíamos àquilo com um incômodo desesperado, sem mover um músculo e cogitando a possibilidade de ir embora. Enquanto os adultos da plateia riam diante da fuga fácil pelo humor gasto, Cecilia só entendia a fisicalidade das gags – por enquanto. O tempo todo a gente se perguntava a necessidade daquelas piadas. Daquele humor. Era mesmo um vislumbre do passado, mas nada nostálgico. E o pior: não era engraçado. Era só patético.

No fim das contas, uma apresentação de Minions de espuma dançando a trilha de Meu malvado favorito sem coordenação, numa luz estroboscópica grotesca, foi o que mais ficou na memória de Cecilia. Saímos até felizes, apesar do vômito preso na garganta.

Mariana, 24 de setembro

Como todos os anos desde que estamos aqui, levamos Cecilia ao Encontro Internacional de Palhaços, nas praças de Mariana. Chegamos às 14h, o (J)jardim está cheíssimo. Cecilia se senta num dos lados da praça, quietinha, no chão. Depois de um tempo me sento com ela.

Tinha lido na programação, mas é ela quem nota antes: “São só palhaças, né, mamãe?”. No começo poderia ser apenas uma reunião cromossômica, XX, mas rapidamente os esquetes de cinco minutos da Roda de Palhaças ganham um tom bastante específico e direto. Uma delas encena a ironia sobre a imagem perfeita e angelical da bailarina. Outra explora o corpo magro, o esforço físico e a roupa que não cabe (ao som de Maniac e arremedo de Flashdance, amo!). Uma dupla, lírica, dança com um títere. Num canto da arena, uma palhaça toca acordeon, outra percussão.

Quando a revolução chega, oprimindo as roupas da palhaça, a mensagem se condensa e fica clara para quem ainda não havia percebido: a revolução começou, em tons de rap, funk, samba e palhaçadas. Por baixo das roupas recatadas (nem um pouco belas), cor de flicts, surgem top short meia calça vermelhos. Próximo esquete. Uma palhaça queria dormir. A outra queria amamentar. Não parece haver conciliação possível. Mandam a mãe palhaça embora, porque o lugar é público. Sem se fazer de rogada, ela mostra as tetas cênicas e derrama leite no meio da praça.

Vacas profanas de um outro tipo de riso, agenciado, generificado, provocador e desconfortável (para os caretas), as palhaças espirram bexigas com água leite na cara dos caretas enquanto se esforçam para explicar a quem ainda não entendeu: cantam Gal, sempre tão presente. Tão no presente (Gal diva em 1984).

Para quem riu da (sem)graça homofóbica macho alfa e para quem ficou em espanto com as palhaças feministas, um aviso: parece que o jogo mudou, né, quiridinhos?

PS1: Não é verdade que o jogo mudou. Mas que o caldo entornou, ah, entornou.

PS2: Ano passado, diante dos horrores do circo, ia escrever um texto a respeito. O cosmos achou melhor esperar. Haveria melhores oportunidades. Como esta.

Foto: Lincon Zarbietti/Circovolante 2016.

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