Eu, leitora da madrugada

Coloco Cecilia para dormir, depois de nosso ritual que inclui desenho, cantiga, deitar no barrigão da mamãe e dar as mãos. Mais tarde, volto à cama. De um lado, André, que foi se deitar junto comigo e tem a capacidade de adormecer profundamente em 35 milissegundos; no meio, Cecilia (sim, nossa cama é compartilhada por motivos de saudade e afeto que um dia conto). Me ajeito no meu cantinho, abro meu ipad jurássico com a capa um pouco manchada de mofo e retomo o romance no meio. A tela se ajusta à escuridão e inverte as cores. É uma da manhã. O plano é ler apenas uns quinze minutos, até o sono se instalar. Duas da manhã finalmente coloco o apetrecho no criado-mudo, entre sonolenta e relutante.

Quando engravidei de Cecilia estava no meio do doutorado. Depois da defesa, fui estudar para o concurso que juntou nossa família. Nesse percurso, e já um pouco antes, desde que cismei que dava conta de pensar/fazer/escrever uma tese, minhas leituras já vinham diminuindo. E isso me fazia sofrer.

Mas quando o papel de mãe surgiu enfrentei muitas mais dificuldades em acomodar nesse balaio de identidades o lugar do eu leitora (também do eu, leitora da Marie Claire). O tempo, o cansaço, todas as outras coisas, lavar as roupas, arrumar a casa, ler os livros de estudo, preparar aulas, fazer comida, não tinha hora de ler.

Eu, que sempre carreguei um livro na bolsa, na pasta, no carro, debaixo do braço, pra ler no almoço, no médico, na folga, na rede, na cadeira, na cama, na vida. Que fugia dos trabalhos e provas da faculdade na estante 820 da biblioteca da universidade. Que a cada desafio da vida real me impunha a tarefa de ler um policial (rimou, foi sem querer).

De repente, eu que já não sou apenas eu, não conseguia ler. Isso me entristecia. Não em detrimento das outras coisas. Nunca quis deixar de ser nada do que sou hoje, só mantinha firme o desejo de acomodar também os melhores pedaços do que era. E leitora sempre foi das minhas melhores partes.

(Demorei quase quatro anos para explorar essa utilidade básica do ipad por pura idiotice. Gracias, Pedro Ivo, por me abrir os olhos)

Eu poderia, é claro, ler no sofá madrugada adentro. Mas todo mundo sabe que ler na cama, na hora de dormir, é delicioso. E, mais importante, o acolhimento verdadeiro de ler na cama, “família” (quando estamos os três, Cecilia diz que estamos “família”), enquanto os dois dormem ao lado, parece assegurar uma conciliação entre muitas das coisas que disputam espaço em cada uma de nós. Nem todas vencem, nem todas acham lugar.

Mesmo sem acreditar que é possível ter tudo, de quando em vez a gente chora porque não consegue tudo, não consegue ser tudo. Em meio a McEwans, Malcomls, Ferrantes, Kinsellas, Cattons, ao lado dos dois, fico feliz com a certeza de que consigo ser o que é mais importante. Basta. Isso é felicidade.

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