Sobre o aprender

 

Foto: Pixabay.A vida toda a gente aprende. Desde cedo a gente aprende. Antes de sair da barriga da mãe a gente aprende. Quando nasceu, Cecilia não tinha aprendido ainda a respirar. Foram mais ou menos 15 dias para conseguir deixar o ar entrar e sair pelos pulmões, sem ajuda, sem aparelhos. Para mamar, demorou mais uns dias. Só conseguiu mamar no peito com mais de 20 dias de vida. Depois de alguns meses, teve ajuda para aprender a  firmar o pescoço e levantar a cabeça.

Nascer requer um aprendizado pela sobrevivência que quase sempre é rápido e natural. Mas ninguém nos ensina que, às vezes, as crianças precisam de mais tempo para aprender a viver. Quando a gente aprende essa lição, entende melhor como é aprender na vida. E descobre que é preciso ter paciência com o aprender.

Mãe de prematura, passei algum tempo observando os  boxes de marcar da cartilha do Ministério da Saúde (os marcos do desenvolvimento), pra conferir se Cecilia estava aprendendo tudo que devia nos prazos considerados normais. Nunca falhou no “X”.

Mas nem tudo que uma criança precisa aprender está numa cartilha nem vem com prazos programados. Damn it.

No início do ano passado, Cecilia entrou na natação.

Consequência? André e eu voltamos à natação, pois crianças nessa idade entram na piscina com os pais.

E, meudeusdocéu, era dureza. Era dureza ter de se enfiar no maiô-touca e entrar na piscina sem a menor vontade. Era dureza segurar Cecilia acordada depois da escola pra nadar. Mas era dureza, mesmo, ter de conduzir Cecilia na piscina por quase uma hora quando ela não demonstrava lá muita vontade de estar na aula. Claro, ela queria estar na piscina. Só não queria mergulhar, saltar, prender a respiração, segurar a borda da piscina…

Depois da ~aula~ a provação era conciliar a necessidade urgente de trocar a roupa da cria e controlar o sono que desestabiliza todas as ligações neuroniais e gera gritos, choro, reclamações, desobediência.

Toda terça e quinta e gente pensava em desistir. Toda terça e quinta seguinte estávamos lá, entre resignados e perseverantes, vendo a cada semana as outras crianças avançarem enormemente nos rudimentos de natação que os bebês aprendem nessa idade.

E Cecilia lá, ainda sem mergulhar.

2016 chegou e ainda estávamos tentando não sucumbir ao fracasso da natação.

Aí Cecilia decidiu que queria aprender a nadar.

E o aprendizado, aquele negócio bastante estudado mas ainda repleto de mistérios, começou a mostrar resultados visíveis, na mão de flechinha, nos saltos destemidos, nos mergulhos (ainda resignados), na paixão pela plataforma subaquática, no domínio da borda da piscina, nos exercícios que ainda faz emburrada – mas faz, sem escândalos.

Quem sabe era o tempo de ela aprender.

***

Existe uma outra versão dessa história, muito mais adorável e particular, que envolve uma família candanga indo lavar as energias de 2015 em um banho de cachoeira. O primeiro de Cecilia. Não existe nada de objetivo, pesquisado e científico, mas foi depois que a deixamos lá, boiando livre (com supervisão) na água corrente da cachoeira de Pirenópolis, que Cecilia se deixou nadar, rindo, alegre, olhinhos fechados deixando o sol bater no rosto e a água embalar as perninhas. Vai ver ela precisava mesmo era de um batismo calango.

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