O que é gorda

Captura de Tela 2016-03-06 às 00.30.13Aqui em casa vigora a política de responder toda pergunta feita por Cecilia. E haja pergunta. Haja resposta. Haja criatividade. Vez ou outra, haja paciência. Parece aquela música da Paula Toller em infinito replay. Adoro a música. Amo Cecilia.

Para toda pergunta tem de haver ao menos uma resposta, nem que seja provisória para os três anos dela. 

É por isso que às vezes a chuva cai porque as nuvens estão cheias de gotinhas; outras, porque as nuvens choram.

Tem dias que respondemos uma lista de oito perguntas de uma vez. Ela se diverte. Tem dias que devolvemos os porquês, quando sabemos que ela já tem uma resposta.

Mas existe uma primeira vez para tudo. Uma pergunta que não respondi. Nem fui capaz de mentir, dizendo que não sabia a resposta. Desconversei.

“Mamãe, o que é gorda?”

Ouviu na rua, quis saber o que era.

Apontei para o desenho na tevê, “olha que cachorriinho engraçado!”

Eu sei o que é gorda.

Gorda é quando a roupa G não cabe num corpo normal, com gordurinhas, porque a grife acha que a barbie e suas medidas são uma referência real.

Gorda são os anos infinitos e intermináveis de automutilação imaginária frente ao espelho, barriga encolhida, zíper descosturando, olhos marejados, uma pilha de roupas experimentadas na cama.

Gorda é a oposição do que é magra, bonita, do que veste bem as roupas, do acinturado, do caimento.

Gorda é a perda da coleção de vestidos e as formas amplas no lugar das peças estruturadas.

Gorda é o bullying, o insalubre, a doença, a vergonha, o esconderijo, o dedo apontado.

Gorda é a distorção da imagem.

Gorda é o avesso do mito da beleza.

Sei o que é gorda. Sei bem.

Meu sonho era que Cecilia nunca soubesse, nem em seu corpo nem no corpo alheio. Que isso não importasse, não fosse um assunto do mundo e da vida.

Fora das utopias, vou desviar do assunto enquanto puder dar à minha filha um mundo sem saber o que é gorda. E todo o peso que “gorda” carrega.

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Um comentário sobre “O que é gorda

  1. Gorda é ser olhada de cima toda a vida. É ouvir que você vale menos porque a balança marca números demais. É ser chamada de linda, sem pausas, porque você emagreceu (não importa o custo) . É passar anos da vida achando que ninguém vai gostar de você, porque foi o que você ouviu a vida toda. É se olhar no espelho e continuar vendo tudo errado, porque nunca é suficiente. É ter que se esforçar cinquenta vezes mais e ouvir que não tá fazendo mais do que a obrigação, porque, afinal, se fosse magra e bonita não precisaria se esforçar desse tanto.

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