Sororidade e mulheres na ciência

Na falta de imagens de mulheres cientistas sociais... Foto: Pixabay
Na falta de imagens de mulheres cientistas sociais… Foto: Pixabay

De repente, as pessoas começam a falar em “sororidade”. Por aqui e ali leio a respeito da “interseccionalidade”. Do alto da minha posição privilegiada de mulher que não enfrenta opressões de raça ou classe, me dou conta de que as coisas ainda precisam mudar tanto que, mesmo dentro do meu mundinho sortudo, é fácil perceber a completa ausência de interseccionalidade ou até de sororidade.

(Disclaimer: este post não é sobre interseccionalidade)

Ainda que não esteja diretamente envolvida com agressão, luto por e saúdo a Lei Maria da Penha, porque sei que ela ajuda, num caminho tão lento, a condenar homens que batem em mulheres. Que matam mulheres;

Ainda que não deseje entrar na política, luto pela ampliação dos espaços femininos na arena do debate público, para que agendas feministas se tornem prioridade da pauta política;

Ainda que tenha condições de pagar escolas privadas, espero muito que a bandeira eleitoral de construção de creches seja cumprida, pois permite às mães trabalharem;

Ainda que não receba, valorizo a iniciativa de o cartão do Bolsa Família ser entregue às mulheres;

Ainda que esteja na ponta opressora da corda, fico imensamente feliz ao ver que a PEC das domésticas garante direitos à massa de empregadas brasileiras;

Por cada uma dessas lutas, me mobilizo. Me solidarizo.

Isso não quer dizer concordar com toda e qualquer agenda etiquetada como feminista. A diferença também me permite decidir o que abarcar.

E aí chegamos ao pantanoso mundinho da academia, este lugar que frequento, bem, porque é onde trabalho. Nele, vemos que sororidade é uma palavra tão distante quando empatia entre colegas.

Ano passado, os professores universitários fizemos greve. No fim das contas, votamos o calendário de reposição a ser apresentado à universidade, coisa e tal. Um colega sugeriu uma parada estratégica em dezembro/janeiro, por conta dos colegas com filhos, que estariam em férias escolares. Felizmente, a proposta venceu. Infelizmente, na hora da votação, vi vários colegas homens – das cavernas? – e várias colegas mulheres contrários (porque ceder essa ajuda aos colegas com filhos ia atrapalhar demais).

Nenhuma, evidentemente, mãe.

É óbvio que toda mulher tem direito a pensar o que quiser a respeito da maternidade e escolher ser mãe ou não, ainda que, de novo, esse seja um assunto clivado por renda/classe: em geral quem escolhe a maternidade é quem tem dinheiro, o que torna a questão ainda mais distante para o mundo da academia. O problema, na minha opinião de apenas 1,62m, é a alta miopia que suporta o “argumento” de colegas ao detestar o recesso: “Não tenho nada a ver com isso”. Isso, claro, os nossos filhos.

De fato, quem pariu Mateus…

Ao usar o argumento da distância em relação à mãe, se esquecem – ou nem sabem, vá lá – que talvez tenha sido uma mulher que não usava contraceptivos uma das que lutaram pelo direito ao controle das mulheres sobre os próprios corpos (e lhes permitiram a opção pela não maternidade, dado que imagino não serem celibatárias). Que mulheres foram às ruas garantir nosso voto, nossa entrada na universidade. Que mulheres brigaram pelas licenças-maternidade perante Capes/CNPq. Que políticas públicas garantem fornecimento de anticoncepcional no SUS. Se esquecem de que são mulheres que tentam quebrar em definitivo o glass ceiling – o da academia, inclusive.

Não percebem que, embora as dores não nos toquem pessoalmente, é justamente a sororidade em relação às lutas nossas e de outras que nos fará avançar.

Dar condições de trabalho à acadêmica mãe é defender que toda mulher pode ascender na carreira universitária, altamente dominada por homens apesar da escolaridade mais alta das mulheres. Mas muitas preferem, no lugar, deixar a mãe que trabalha se esfalfar sozinha ao sol e disputar a tapas, também sozinhas, esses lugares. Segundo esse estudo aqui, coitadas delas.

Estou longe de dizer que maternidade é um lugar sagrado ou um essencialismo. Mas é, sim, uma questão quase inescapável a ser problematizada, pensada, e compreendida no âmbito do que é ser mulher, hoje, no Brasil – e também na academia.

Talvez quem ache que maternidade se resuma a “ter ou não filhos” e que ser mãe ou não é o que nos faz ter a ver com isso (os filhos dos outros), deveria desnascer, pois muito possivelmente as respectivas mães tiveram de viver as questões da maternidade: em casa, na família, no trabalho, na academia, na individualidade, no corpo, na vida. Só assim, imagino, puderam criar filhos e filhas da/para a academia. Não conheço nenhuma mãe de meados do século XX em diante que passou incólume a esses dilemas. É mesmo um rasgo. Na vida de tudo que é mulher. Seria um rasgo mais suportável com apoio.

Em tempo: imagino que não terei muita ressonância ao cobrar da universidade a construção da creche que ficaria pronta em 2014.

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