A miopia maternal e “Que horas ela volta?”

Mãe é essa espécie esquisita mesmo, míope, que enxerga o mundo por alguma lente invisível (para além da minha lente de miopia, no meu caso particular) que filtra, recolore e amplifica algumas coisas no mundo. Ver filmes, por exemplo, se tornou uma atividade diferente.

Tempos atrás, revi Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho. A primeira vez a que assisti ao filme não era mãe. A experiência pós-maternidade foi definitivamente distinta.


De todas as mulheres que falam no filme, só uma não discorre sobre a maternidade. Em todas as outras, mesmo nas atrizes, embora o assunto não seja necessariamente esse, a mulher-mãe aparece, de alguma maneira. Obviamente minha emoção foi igualmente distinta dessa vez.

A maternidade é um rasgo, um corte (às vezes também literal, como no meu caso) de antes-e-depois na vida de quem assume ser mãe. Falo aí de uma maternidade menos literal, que pode nem começar no ato de parir, e que pode também começar sem parir.

Cena de "Que horas ela volta?", Jéssica e Val. Divulgação.
Cena de “Que horas ela volta?”, Jéssica e Val. Divulgação.

Esse abismo que divide a vida de mulheres é véu, lente, filtro. Outro (2) dia desses, passou Que horas ela volta? na TV. Uma parte de mim entendeu, claro, ao longo do filme a questão de classe, a denúncia do sistema classe-gênero, a crueldade da patroa falando inglês com o marido para a empregada não entender. Eles oferecem por educação. Não é pra aceitar. O sorvete deles não é o nosso. A vergonha da estrutura do trabalho doméstico no Brasil. Fui capaz de perceber que o filme era sobre isso. Não estou tão míope assim.

Mas meu olhar míope não se descolou/deslocou das três maternidades que se descortinavam ali, também elas marcadas pelo sistema classe-gênero, pelas cidades onde essas maternidades se desenrolam, pelas vivências de cada uma delas como mãe, pelas idades, pelo afeto, pela crueldade, pela inabilidade. Em como os movimentos entre mães e filhos no filme se desenrolam como vagas de aproximação-afastamento, às vezes remediável.

Fiquei ali martelando sobre a brutalidade da maternidade submetida à pobreza, ao emprego doméstico, à humilhação diária (o  trabalho doméstico em si não é humilhante, nem toda empregada é humilhada, nem toda patroa é cruel. Ainda assim). Como é sofrida a maternidade de Val, como deve ser doído deixar de ser mãe pra poder criar a filha. E tentar voltar a ser mãe, sendo vó e mãe. “Puta que pariu, Val. Dez anos?”. Dez anos. Dez anos de salário.

São escolhas (?) que não enfrentei, então só posso supor essa dor, também como mãe e mulher. Minhas opções entre trabalho e maternidade opuseram e opõem, ainda, as duas coisas (a ausência de creche na universidade, as férias escolares, a filha doente, a reunião extraordinária, as demandas fora de hora – o que é “a hora”? – tudo isso coloca em choque essas identidades), mas em um nível privilegiado classe-média escolarizada. Diante do que passam as Vals do mundo, é balela.

Na verdade, imagino que, para o resto do mundo-que-não-tem-nada-a-ver-com-isso, ser mãe deve ser muito chato. Tudo bem. Minha miopia especial imaginária maternal me impede de enxergar esse desagrado alheio. Me permite ignorá-lo e foca minha atenção no que me importa. Também imagino que essa miopia também pode ser só minha (diferentona feelings). Tudo bem também. Isso não é uma teoria, é só um post.

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