Ser mãe e ter medo em Mariana

Antônio Cruz/Ag. Brasil
Antônio Cruz/Ag. Brasil

Medo de subir, gente
Medo de cair, gente
Medo de vertigem
Quem não tem

Cada mãe constrói sua maternidade pelos caminhos que filhos e vida impõem. A minha maternidade tomou alguns rumos desde o dia 20 de novembro, há exatos três anos, quando às sete da manhã minha bolsa rompeu e, por conta disso, a visão da minha filha, nas primeiras semanas, foi pelo vidro. O toque na pele de Cecilia pelas aberturas da incubadora. 

Sou a mãe que sou porque minha filha nasceu prematura; não sei o que é ser outra mãe, porque o condicional não me interessa quando olho para Cecilia e vejo o que somos – mãe e filha – ser construído pelas vidas que vivemos, juntas.

E são muitos os momentos que constroem essa maternidade.

No dia 5 de novembro, um desses momentos mudou a minha maternidade e a paternidade do André. O rompimento de uma barragem, a enxurrada de lama, a constatação (a reconstatação, a ressignificação) de que vivemos cercados por minas à beira de acidentes em potencial me tornou uma mãe com medo.

Sim, ser mãe é ter medo. Sei disso. Tenho medo desde que Cecilia não conseguiu respirar sozinha quando nasceu. Desde muito antes. Desde sempre e para sempre.

Mas a partir da quinta-feira dia 5, esse medo é concreto, tem nome, sobrenome e perigo real. Um perigo que não posso, em absoluto, prever ou controlar.

É uma barragem, são duas barragens, é o medo de deixar a filha na escola, na parte baixa da cidade, é o medo dos sinos, é o pavor do monte de sirenes e helicópteros que sempre passam pela janela de casa. É o radinho de pilha ligado à busca de novidades.

Não posso segurar a mão da minha filha; não é uma rua para atravessar. Não posso abraçá-la; não é o escuro.

Desde 5 de novembro, ser mãe em Mariana é ter medo de a barragem ruir, é temer as minas. Não me bastam dois ou cinco ou dez programas de tv e reportagens de jornal: meu medo não é racionalizável pelas reiteradas garantias de segurança que vêm de vários lados. Na verdade, o medo cresce à mesma proporção das respostas vazias, das incertezas, da opacidade. 

Sim, ser mãe dá um medo que dói todas as partes do corpo. Pensar na filha longe de você, ainda que na escola, sob a ameaça da lama, todos os dias, curva o corpo de dor.

Sim, dá medo do medo que dá. O medo é mesmo uma linha que separa o mundo, uma sombra.

Mas como disse Audálio Dantas num debate que tive a honra de mediar dia desses, esse medo não me acovarda.

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