Esse corpo não te pertence

Foto: Pixabay. A blogueira inglesa June Eric Udorie publicou no Guardian, semana passada, sete itens que as jovens feministas devem priorizar hoje. O primeiro – e meu foco aqui – é: “Ajudar meninas a aprenderem sobre consentimento e relações sexuais saudáveis”. Mais à frente, ela deixa claro caso alguém ainda não tenha entendido o que quer dizer consentimento:

“Meninas estão sendo estupradas e nem sequer sabem.”

Estupro pode ser uma violação declaradamente não-consentida e violenta, seguida do não. Tem dor, força. Estupro pode ser invisibilizado por carinhos, carícias, toques. Só que o que parece – e é classificado como – amor é inapropriado e indesejado.

Mas o consentimento vai além do que se constrói como imaginário do estupro de meninas. Há séculos e muitos séculos os homens não se dão ao trabalho de perguntar se “podem”. Simplesmente invadem, literal e metaforicamente. Invadem e violam meninas, falsamente apoiados por rótulos de namorados, maridos, noivos, companheiros, cruelmente amparados por algo como “cultura”.

Há séculos meninas são ensinadas que os corpos delas não as pertencem, mas ao homem, o que dá a ele o direito de usá-los. Por isso é possível disfarçar violência de carinho; por isso muitas não conseguem dizer não – não saberiam como. Por isso muitas acham normal serem vistas como mulheres, como carne, aos 13 anos.

Mais que jovens feministas, mães e pais têm o dever de se preocupar com a segurança e autonomia dos corpos das filhas. É fácil? Não.

Tem receita? Não. Na maternidade e paternidade, as únicas coisas que têm receita são soro caseiro e papinha.

E, por mais terror que possa nos causar, nossas filhas estão sujeitas, como ¼ das mulheres (pois é, como qualquer grupo entre quatro de nós), à violência sexual. Só porque nasceram mulheres. É um dos meus piores pesadelos. Queria poder guardar minha filha a salvo.

Aqui em casa fazemos pequenas ações sobre esse tema:

  • copiando uma amiga, ensinamos que há lugares onde apenas papai e mamãe tocam. E nossos toques e beijocas e carinhos são de amor familiar;
  • reforçamos a ideia de que menina não é sinônimo de mulher, mas são estágios distintos da vida;
  • evitamos dizer que ela “já é uma mocinha”, porque afinal de contas ela não é;
  • ignoramos peças como sutiãs para crianças de dois anos (sim, eles existem…);
  • evitamos histórias em que mulheres são beijadas ou tocadas à revelia (como Branca de neve – tenho birra mesmo – ou A bela adormecida);
  • rejeitamos qualquer brincadeira feita por pais de meninos como “cadê minha norinha?”, “filho, chegou sua namorada”. Meninas de 2 anos não são namoradas de ninguém. Meninas não são namoradas;
  • temos evitado “roubar beijinhos” e, no lugar, pedimos para beijar e sermos beijados (desde uma certa idade, né?!, porque de bebê a gente roubava mesmo);
  • evitamos desenhos com namoros, casamentos e demais relacionamentos que não sejam amizade, companheirismo – mas falamos de amor.

Há pouco tempo a rede Marista de Solidariedade lançou uma campanha, Defenda-se, para crianças maiores, ajudando a explicar a diferença entre carinho e abuso. Esse vídeo está rolando na internet:

No site do projeto, há (por enquanto) nove vídeos sobre maneiras pelas quais as crianças podem se defender: http://defenda-se.com/.

PS.: Mães e pais de meninos têm a obrigação de tentar formar uma geração de homens que entenda que não há direito de propriedade masculina sobre o corpo da mulher – que não significa não.

PS2.: As outras coisas que as jovens feministas devem priorizar hoje, segundo Udorie: ouvir todas as mulheres do movimento – novas e velhas; abraçar a interseccionalidade; lutar pelos direitos reprodutivos; rejeitar o feminismo “de escolha”; reconhecer e discutir a violência masculina fatal contra as mulheres; e dizer não ao sexismo da mídia.

Original aqui.

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