Tornar-se mulher

beauvoirO que é um clássico? O segundo sexo, de Simone de Beauvoir, é um clássico. É um clássico meu (claro, é um clássico de muita gente, mas não é isso que importa aqui). Tanta coisa passou depois dela, depois do que ela escreveu. Muito do que está ali diz respeito a um mundo que nem é mais. Mas Beauvoir continua tão atual quanto da primeira vez que a li e, suspeito, de quando escreveu.

É sempre, invariavelmente, o primeiro livro que indico a todas as minhas alunas que estudam gênero. Olho para o trabalho de Beauvoir como a primeira porta escancarada e dolorida que abrimos quando resolvemos percorrer o “continente escuro”.

É nela que me inspiro quando aspiro, em casa, criar uma filha, uma menina, nesse mundo cão. É uma mini Beauvoir que cultivo em Cecilia (à escolha dela quando quiser seguir pelos caminhos próprios, mas sem nunca poder reclamar que não sabia – como muitas de nós não sabíamos por grande parte da vida).

Criar uma menina, portanto, é um devir. Afinal, ninguém nasce mulher, torna-se mulher. Tornar uma menina em mulher  – forjar a mulher na menina – é tentar fazê-la perceber que todas podem ser princesas, mas não precisam ser apenas isso.

Não é tarefa fácil. Por isso, cada conquista nos aproxima desse devir. Aqui em casa, damos passos e passos, do tamanho dos pezinhos pequeninos de Cecilia. Dia desses, quando terminei de arrumá-la para sair, disse que estava linda. Ela emendou: “E inteligente, valente e forte”. Tornar-se. Tornando-se.

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