Confissões de uma consumista

Beck Bloom/Divulgação

Logo no primeiro capítulo de Becky Bloom, me identifiquei. Era fácil perceber o que eu tinha em comum com a moça da echarpe verde. Tinha até um cardigã preto que comprei em surto compulsivo parecido, para afogar alguma dor de cotovelo.

No armário, mais de cem vestidos. Idas ao shopping para compras imaginárias (window shopping, uma dessas expressões maravilhosas e intraduzíveis). Conhecimento detalhado de cada coleção das marcas preferidas. Senso de orientação perfeito em todos os pisos, localização milimétrica de cada loja.

Um dia grávida, me dei conta de que meus infinitos quilos a mais me haviam feito perder muitas coleções. Não me entristeci, é claro, mas a constatação houve.

Nossa diferença, minha e de Becky, à parte a imensidão de diferenças, é que nunca me afundei nas dívidas (apesar de já ter congelado um cartão de crédito na geladeira).

Era isso. Ia ao shopping toda semana. Várias vezes na semana. Quase todo dia. Almoçar, lanchar, bater perna, ler, estacionar em local seguro, descolar um whooper duplo, comprar os vestidos especiais (de aniversário, de qualificação, de dia das crianças, de natal, de felicidade, de fossa…), fotografar livros para comprar mais barato no site, inventar necessidades fashion.

Nada disso quer dizer que eu era uma pessoa vazia. Significa apenas que uma parte de mim estava plena de consumo.
***
Então Cecilia nasceu. Com ela, nasci como mãe. E graças ao sono irrepreensível da filha, eu nova mãe me dediquei/me dedico a ler sobre maternidade. A pensar em que tipo de mãe quero ser para ajudar minha filha a ser uma pessoa legal.

De repente, o vício das compras assumiu novos contornos. Afinal, nos meus delírios de consumo na W3 Norte, era uma mulher adulta, independente, consciente e empoderada na medida em que me permitia/permito ser comprando coisas inúteis a granel e bens necessários eventualmente.

Cecilia, por outro lado, é uma menina que poderia crescer vendo a mãe associar sacolas, presentes, novidades, compras, à felicidade, ao sentir-se bem. Cecilia é uma menina que eventualmente entenderia que pode ter tudo que quer, e que isso é fácil. Que tudo se compra, e que se compra a todo o tempo.

Conto nos dedos as vezes em que fui/fomos ao shopping com Cecilia. Só me lembro de uma vez em que compramos um presente para ela, e foi algo beeeem barato.

Não é um passeio rotineiro da família. Quando ainda na metrópole, tentava ir às compras sozinha, e concentrá-las. De fútil fashion gastadeira, virei mãe patrulha.

Hoje, morar no interior ajuda. Muito. Não há estímulos suficientes, e nem tudo se compra pela internet (apesar de quase tudo se poder comprar pela internet).

Sinto falta, sim, de bater perna à toa entre os corredores, das luzes claustrofóbicas, de vasculhar araras e experimentar coisas.

Mas cultivo essa saudade sem culpa ou tristeza.

Cecilia gosta de ganhar presentes, claro. Mas ainda não pediu nada. Nem acha que pode ter tudo. Não há felicidade maior, nem coleção de loja que faça sombra.

Como não sou autodidata, uma das coisas mais simples e eficazes que li sobre a cultura do consumo e a infância é isso aqui.

Essa cartilha simplérrima me ajuda a entrar nos trilhos quando tenho vontade de comprar algo brilhante, divertido ou inútil.

O site inteiro é bacana. Radical. O que não diminui a bananice. Mãe de vez em quando tem que ser radical mesmo.

Às vezes também repito como mantra o trechinho final de Musak, do Zeca Baleiro, com a voz da Rita Beneditto na minha cabeça:

“Tudo que se vê, pra que crer
Tudo que se crê, pra que ter
Tudo que se tem, pra quem”

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