Ser mãe de menina#1

maefilha. Pixabay/CCVejo.leio muita coisa falando sobre o que é ser-mãe-de-menina. Na superfície, ser mãe de menina me parece, pelo que percebo, uma doce viagem por babados, delicadezas, faz de conta de princesas, alterações de humor adolescente e, enfim, feminilidade.

Aqui em casa ser mãe de menina é uma aventura tão deliciosa e árdua quanto ser mãe de menino. Quer dizer, quase.

Porque ser mãe de menina, pra mim, é pensar que minha filha vai atuar num mercado de trabalho que paga 20% a menos às mulheres, ainda que tenham melhor formação. Que mesmo sendo a-melhor-da-turma, ela terá menos chances de se tornar chefe (ainda que a possibilidade de chefiar uma família seja maior).

É pensar que minha filha um dia pode ser recebida pelo chefe com uma cantada em vez de bom dia, que não vai conseguir andar pela rua sem receber uma palavra grosseira, gratuita e não desejada, assim, só porque é mulher e tá ali dando sopa (vulgo andando para casa, escola, padaria…). Que vai ser xingada de vaca, vagabunda, piranha para desqualificá-la em qualquer esfera (e em geral essas desqualificações serão injustas, dolorosas).

Ser mãe de menina é me lembrar todos os dias dos índices de estupro. É pensar que a culpa do estupro é da roupa e, portanto, da mulher. É pensar no crescimento dos índices de HIV entre mulheres e nas tantas que morrem fazendo aborto ilegal porque o corpo delas é legislado externamente.

Ser mãe de menina significa ter de ensinar a importância capital da palavra “não”. E reforçar que ela simboliza a propriedade da mulher sobre sua vontade e seu corpo. É repetir: “Não quer dizer não”.

Ser mãe de menina é ensinar a filha a valorizar o invisível trabalho doméstico, o cuidado com as crianças e os idosos. E também ensinar que ter filhos não é uma obrigação imposta pelo útero. É saber que ela vai ser julgada por ser mãe, por não ser mãe, por ser boa mãe, por ser mãe de muitos, mãe de pouco. É saber que ela vai sofrer assédio moral no trabalho se for mãe.

É temer que os colegas de trabalho se sintam no direito de chamá-la de “prenda”, “mocinha”, “queridinha” em público. Que tentem ganhar no grito e na força a discussão. Que a ignorem nas discussões, olhando para os homens da mesa e nunca para ela.

Ser mãe de menina significa incluir no vocabulário dela expressões como “Maria da Penha” e “feminicídio”, “machismo” e “patriarcado”. É temer, além de todas as doenças, anorexia, vigorexia, bulimia.

Ser mãe de menina é se preocupar com o corpo da filha, o valor do corpo e do que está além dele. É mostrar à filha que ela não é apenas um pedaço – ou vários – de carne. E que, sendo mais que corpo, ela não é definida por ele, nem pela beleza ou pelos padrões impostos sobre eles; é demonstrar que a mulher tem o direito de ser magra demais, gordinha, gorda, flácida.

Ser mãe de menina é criar uma filha em um mundo que não respeita, valoriza e reconhece a mulher como igual, mas como a outra – o outro, que nem o direito ao artigo feminino a gente tem às vezes.

Ser mãe é ter medo. Ser mãe de menina é ter pânico.

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